Filme de Bolsonaro: Dino retira sigilo de material da polícia de SP sobre financiamento de 'Dark Horse'

Flávio Dino
    • Author, Mariana Schreiber
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
  • Published
  • Tempo de leitura: 5 min

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo dos documentos do caso que apura o possível direcionamento de emendas parlamentares no Estado de São Paulo para o financiamento do filme Dark Horse, que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A decisão foi tomada neste domingo (13/09) e alcança o material produzido pela Polícia Civil de São Paulo sobre o caso.

Os documentos fazem parte de uma das investigações que tramitam atualmente no STF relacionadas ao financiamento do filme. O braço relatado por Dino mira o possível uso irregular das emendas parlamentares.

A outra investigação apura a origem e o destino de recursos enviados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme, após pedidos do senador Flávio Bolsonaro (PL).

No despacho deste domingo, Dino determinou que o STF centralize o inquérito que tramitava na Polícia Civil do Estado de São Paulo.

Na mesma decisão, proferida no âmbito da Petição (PET) nº 16.669/DF, o ministro ordenou o levantamento do sigilo dos autos e dos atos investigativos já documentados, sob o fundamento de que é necessário garantir transparência e prevenção contra vazamentos seletivos.

Dino afirmou que, após analisar o material produzido pela investigação da Polícia Civil de São Paulo, os elementos indicam um possível "sofisticado esquema de destinação e desvio de recursos públicos", principalmente de emendas parlamentares federais.

O ministro ainda mandou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo entregar à Polícia Federal todo o material bruto extraído de celulares apreendidos, além dos aparelhos, computadores e documentos recolhidos.

Da esquerda para direita, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master; o ator Jim Caviezel caracterizado como como Jair Bolsonaro no filme Dark Horse; e o deputado Mario Frias, que também é roteirista do filme
Legenda da foto, Da esquerda para direita, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master; o ator Jim Caviezel caracterizado como como Jair Bolsonaro no filme Dark Horse; e o deputado Mario Frias, que também é roteirista do filme
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Ambos foram alvo de uma operação policial na última quinta-feira (10/09) para apurar o suposto desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares repassadas, por meio de termos de fomento, a organizações da sociedade civil.

Frias é acusado de ter repassado R$ 2 milhões a Gama, que é dona ao mesmo tempo da produtora Go Up Entertainment e de uma organização à frente de projetos sociais, o Instituto Conhecer Brasil (ICB).

Em vídeo postado em suas redes sociais na noite de quinta-feira, Frias acusou a operação de ser uma "cortina de fumaça" em período eleitoral. Segundo o deputado, a emenda parlamentar investigada foi destinada a um projeto esportivo e de letramento digital para crianças. Ele disse ter documentos e notas para comprovar a licitude da ação.

"Levaram celular, documentos, computador. Ninguém foi preso. É claro, porque não existe mandado de prisão contra mim nem contra ninguém", disse o parlamentar.

Em maio, Frias negou que tivesse destinado emendas ao filme Dark Horse. Ele disse que a tese é "absolutamente falsa, desprovida de qualquer lastro probatório e difamatória."

Na decisão que autorizou a operação, Dino sustentou que as apurações iniciais apontam possíveis crimes envolvendo Frias e um suposto grupo criminoso do qual ele faria parte.

Segundo o ministro, recursos públicos federais teriam sido destinados, por meio de termos de fomento financiados com emendas parlamentares, às organizações sociais Instituto Conhecer Brasil (ICB) e Academia Nacional de Cultura (ANC), ambas presididas por Gama, que teria ligações com o parlamentar.

Na operação de quinta-feira passada, outro alvo foi o eletricista Vanderlei Magalhães Natividade, tesoureiro do ICB cuja casa foi alvo de busca e apreensão. Segundo a PF, ele teria assinado documentos relativos à movimentação de cerca de R$ 83 milhões em um ano.

Em nota enviada à imprensa, os advogados de Natividade afirmaram o eletricista é primo de Karina Gama, forneceu seus dados para ajudar na criação do instituto há 12 anos e foi registrado como tesoureiro estatutário, mas não atuava como tal.

"Não obstante essa designação no estatuto, Vanderlei nunca exerceu qualquer atividade de fato no instituto, nunca movimentou contas da entidade e nunca recebeu qualquer valor em detrimento da sua suposta posição executiva", diz nota assinada pelos advogados Miguel Kupermann e Matheus Yasbeck Montenegro.

Nesta segunda-feira (14/09), em uma reportagem publicada pelo Intercept Brasil, um outro eletricista que era apresentado como tesoureiro-geral negou que atue na organização. Jacio de Medeiros Dantas disse ao site jornalístico que emprestou seu nome a pedido da mãe de Karina, que solicitou uma ajuda à filha.

Em sua decisão de domingo, Dino também faz menção a uma possível participação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no esquema. O ministro, porém, não detalhou qual seria o papel da facção ou em quais circunstâncias, nem identificou integrantes do grupo ou condutas específicas.

"Com efeito, no curso da investigação se fortalece a hipótese de imbricação indissociável em um sofisticado esquema de destinação e desvio de recursos públicos, com destaque para emendas parlamentares federais e para a prefeitura de São Paulo. Essa organização alcançaria, inclusive, vínculos com a facção PCC (Primeiro Comando da Capital), consoante linha investigativa mencionada nos autos", diz Dino na decisão.