'Derruba esse site': como Vorcaro tentava controlar sua imagem e a de aliados na internet

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    • Author, Leandro Prazeres
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
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  • Tempo de leitura: 9 min

Em setembro de 2024, o banqueiro Daniel Vorcaro recebeu de um auxiliar uma proposta para invadir um sistema do jornal Folha de São Paulo e apagar uma reportagem sobre ele. A matéria traçava um perfil do empresário e descrevia a expansão do Banco Master.

Àquela altura, Vorcaro já chamava atenção pela oferta de CDBs com remuneração elevada, por aquisições em série e por festas luxuosas e eventos com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

A sugestão aparece em mensagens de WhatsApp extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro e obtidas pela BBC News Brasil.

Em 25 de setembro, o auxiliar encaminhou: "Estamos trabalhando para entrar na database do site da Folha de São Paulo para remover do backup. Assim faremos com os outros links também."

As conversas não demonstram que o acesso tenha ocorrido. A Folha afirmou à BBC News Brasil que não registrou os ataques mencionados e que suas reportagens continuam no ar.

O episódio é um exemplo de como Vorcaro acionava uma rede de auxiliares para tentar retirar publicações e proteger sua imagem e a de aliados.

Os diálogos registram pedidos contra publicações e perfis inteiros, monitoramento de pessoas e consultas a uma plataforma de dados pessoais posteriormente bloqueada pela Justiça. Também sugerem uma estratégia de promoção de notícias favoráveis para reduzir a visibilidade das negativas nas buscas.

Ex-controlador do Master, Vorcaro está preso preventivamente desde 4 de março de 2026, no âmbito da Operação Compliance Zero, suspeito de ter cometido crimes contra o sistema financeiro. Sua defesa vem negando irregularidades ao mesmo tempo em que negocia um acordo de colaboração premiada com as autoridades.

Parte das estratégias descritas nas mensagens já veio a público com a investigação da PF sobre "A Turma", núcleo suspeito de obter informações sigilosas, monitorar e intimidar pessoas em benefício do banqueiro. Essas suspeitas estavam entre os elementos que embasaram sua nova prisão preventiva, em 4 de março de 2026.

Um dos intermediários apontados pela investigação era Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário e salvo no celular de Vorcaro como "Felipe Mourao". Sicário morreu em 6 de março de 2026, dois dias após ser preso. Nas conversas, recebia pedidos do banqueiro e repassava propostas e relatos atribuídos a outras pessoas.

A análise dessas conversas permite acompanhar como os pedidos eram feitos, quais ferramentas eram oferecidas e que resultados eram relatados.

Publicações e contas na mira

A BBC News Brasil identificou 189 publicações, páginas e contas mencionadas em pedidos ou relatos de retirada nas mensagens. Os casos vão de novembro de 2023 a novembro de 2025. Não há comprovação de que todos tenham saído do ar. O período coincide com o aumento da exposição do banqueiro na mídia e a sua primeira prisão, em novembro de 2025.

O levantamento da reportagem examinou a íntegra do texto disponível em mais de 11 mil registros da conversa entre Vorcaro e Mourão, o Sicário, que incluem mensagens, referências a anexos e registros de chamadas.

Entre os alvos mencionados estavam jornalistas, fotógrafos e empresários. As mensagens também sugerem vigilância preventiva de pessoas do convívio de Vorcaro, pelo receio de que publicassem algo sobre ele.

Em mensagem de 1º de novembro de 2023, por exemplo, o banqueiro pediu que Mourão monitorasse o Instagram de uma mulher que, segundo ele, o havia bloqueado.

"Ficou com raiva", escreveu. "De mim e pode postar algo". Em seguida: "Ai temos que tomar e derrubae".

Quando Mourão perguntou se deveria apenas monitorar ou adotar uma medida "mais contundente", Vorcaro respondeu: "Monitora por enquanto".

O auxiliar relatou que a vigilância estava em andamento e que já tinha informações sobre a mulher.

Mais tarde, o banqueiro reforçou: "So monitorar" e "Nao vamos fazer nada".

Dois dias depois, mandou deixar o assunto de lado.

Propostas de invasão ao jornal Folha de São Paulo e outros veículos

Antes da proposta de invasão, os pedidos para retirar a reportagem da Folha já se arrastavam havia semanas. Em 2 de setembro de 2024, Mourão enviou a Vorcaro o link do texto e sua reprodução em outro site.

Junto dos endereços, encaminhou uma pergunta: "pode mandar derrubar esses dois links?".

Publicada em 30 de agosto com o título "Novato na Faria Lima, banqueiro de 40 anos chama atenção por aquisições em série e festa com Alok", a matéria também abordava um processo na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) envolvendo Vorcaro e seu pai.

O banqueiro demonstrou dúvida: "Nao sei como vai derrubar folha". O auxiliar respondeu: "Já pedi os meninos,pode deixar".

"Meninos" era o termo usado nas conversas entre Vorcaro e Mourão para designar pessoas que supostamente atuavam para derrubar sites ou notícias negativas a Vorcaro e para levantar dados de desafetos do banqueiro.

Oito dias depois, Mourão repassou uma atualização: "Sobre o link da folha está em processo para ser removido, enquanto isso estamos em cima".

Em 25 de setembro, o auxiliar encaminhou um relato segundo o qual páginas de alguns sites voltavam ao ar depois de retiradas porque eram restauradas a partir das cópias de segurança — arquivos que permitem recuperar versões anteriores do conteúdo.

A proposta de acesso ao sistema da Folha surgiu nesse contexto. O objetivo descrito era impedir que o conteúdo fosse recuperado após a exclusão, apagando-o também do backup. O remetente dizia que faria o mesmo com outros links.

As mensagens também mostram uma série de conversas e tentativas de derrubar contas de jornalistas e até criadores de conteúdo no YouTube cujo conteúdo desagradasse Vorcaro ou algum aliado.

Um exemplo envolve o blog Nem Amigo Nem Inimigo, do jornalista José Amílcar Tavares Soares. Em 31 de janeiro de 2024, Vorcaro encaminhou uma nota sobre um novo bilionário brasileiro na temporada de esqui na Suíça.

"Derruba esse site", determinou. "Urgente". Pouco mais de uma hora depois, Mourão informou que o link estava fora do ar.

Daniel Vorcaro
Legenda da foto, BBC News Brasil obteve mensagens de WhatsApp extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro

O auxiliar ofereceu tomar o site e o domínio.

Vorcaro recusou, dizendo que a publicação já havia sido retirada, mas acrescentou: "Mas deixa sempre no gatilho". Depois, Mourão encaminhou um relato: "Estamos dominando o site, vamos ficar monitorando, qualquer coisa que sair derrubamos tudo e se precisar, derrubamos o site."

Naquela tarde, outra mensagem encaminhada afirmava que os dados de login do site estavam em nome de uma parente do jornalista.

A BBC tentou contato com o jornalista por um formulário de seu site, mas não conseguiu retorno até o fechamento desta reportagem.

Já em 23 de outubro de 2025, Mourão escreveu diretamente ao banqueiro: "Os meninos invadiram a revista piauí… Manda deletar os links e todas as matérias?".

A revista piauí foi uma das primeiras publicações do país a revelar a extensão das atividades do banqueiro no mercado financeiro e a relatar as suspeitas em torno de Vorcaro.

Em seguida, disse que aguardava sua aprovação para apagar o conteúdo. Não há, nessa sequência, uma resposta de Vorcaro autorizando a exclusão nem demonstração técnica do acesso alegado.

Ao comentar esse episódio em texto publicado em 29 de setembro de 2026, a piauí afirmou não ter registrado nenhum problema no site naquele dia. A revista também observou que Mourão aparentemente não obteve o aval de Vorcaro para apagar os conteúdos.

Ataques a contas de Instagram

As mensagens sugerem que uma única publicação no Instagram podia motivar iniciativas contra o perfil inteiro.

Mourão afirma, nas mensagens, ter derrubado ao menos 17 perfis e publicações na rede social.

Nas mensagens de janeiro de 2024, um vídeo de drone publicado pelo fotógrafo Carlos Santiago, responsável pelo perfil My Phantom Toy, aparece como alvo de um pedido de retirada.

A BBC News Brasil procurou Santiago por meio de suas redes sociais, mas ele não respondeu.

O vídeo mostrava a Ilha do Topete, na Bahia, com estruturas como piscina, heliporto e píer.

Quem reclamou, segundo as conversas, foi um sócio de Vorcaro. Ele dizia que a propriedade estava sendo exposta sem autorização e pediu ao banqueiro que agisse.

"Meu socio tava querendo que derrubasse", escreveu Vorcaro a Mourão. "Pq ta expondo ilha dele". Quando o auxiliar perguntou se deveria "derrubar total", o banqueiro delimitou: "Derrubar so esse link ne".

Cinco dias depois, Mourão repassou o vídeo com a mensagem "Banido mestre".

Em 29 de janeiro de 2024, o Bahia Notícias noticiou que Santiago perdera acesso ao perfil, com mais de 60 mil seguidores. A reportagem não mencionava Vorcaro.

A BBC News Brasil já mostrou o caso da criadora de conteúdo sobre música eletrônica Ana Raquel dos Santos Ribeiro, do perfil @anatrackid.

Ela divulgou uma festa ligada a Vorcaro sem saber quem era o anfitrião e teve a conta suspensa por nove dias em novembro de 2023. Nas mensagens, o banqueiro pedia a retirada da publicação.

Procurada pela BBC, a Meta, responsável pelo Instagram, disse que não comentaria.

Site bloqueado na Justiça

As mensagens também associam pedidos de remoção a buscas por informações sobre os autores das publicações.

Em 17 de outubro de 2024, em uma troca sobre quem estaria por trás de uma comunidade de mercado financeiro, Mourão enviou anexos intitulados "Tech Busca [Raio X]", "Tech Busca [Dossie]" e "Tech Busca [Busca Parentes]".

O site techbusca.org oferecia buscas a partir de CPF, nome, telefone ou placa de veículo.

O serviço se apresentava como uma ferramenta de validação cadastral, análise de crédito e consulta veicular, com relatórios sobre pessoas físicas e empresas e pontuações de crédito.

Ao entrar no site, hoje, há um aviso de bloqueio judicial da Polícia Federal.

Nele, a PF associa a TechBusca à Operação Dataleaks e afirma que seus responsáveis usavam métodos ilícitos para obter dados privados.

Segurança em frente a portal de entrada com logo do Banco Master
Legenda da foto, Além de tentar retirar publicações do ar, o grupo discutia como promover conteúdo favorável a Vorcaro e o Banco Master

Notícias positivas para disputar as buscas online

Além de tentar retirar publicações, o grupo discutia como promover conteúdo favorável a Vorcaro. Em janeiro de 2024, Mourão explicou que a publicação de matérias positivas buscava "desbancar os links negativos" nos resultados de busca.

Publicar conteúdo patrocinado e adotar técnicas para melhorar a presença em buscadores não são, por si só, práticas proibidas.

O Código de Defesa do Consumidor exige que a publicidade seja identificável. Já as regras do Google vedam, entre outras práticas, a compra de links para manipular o ranking e a produção em escala de páginas voltada principalmente a influenciar as buscas.

Em 12 de dezembro de 2023, o auxiliar enviou um documento intitulado "720 Postagens".

O documento ainda está no ar, em um arquivo no Google Docs, e mostra 42 links em 42 domínios diferentes. Os títulos associavam Vorcaro a sucesso empresarial, liderança e inovação e incluíam textos sobre sua atuação no Master.

"Esses são os links positivos que ficaram,pede para dar uma olhada e se tiver algum que vc queira que retire ou que modifique algum me avise", escreveu Mourão.

A BBC News Brasil consultou, no Registro.br (responsável pelo registro de endereços de sites terminados em ".br"), os 42 domínios dos links presentes no documento enviado por Mourão a Vorcaro. Todos estão atualmente registrados em nome da empresa Saftec Perícia Digital Ltda.

A titularidade atual dos domínios não esclarece se alguém encomendou ou pagou aqueles textos em 2023.

Em seu site, a Saftec oferece produção de textos com linguagem jornalística e distribuição de conteúdo de marca.

Também oferece remoção de conteúdo, gestão de crises e estratégias para ampliar a presença de clientes nas buscas e nas respostas de inteligências artificiais.

Jonatas Lucena, sócio-proprietário da Saftec Digital, afirmou à BBC News Brasil que a empresa não foi contratada por Daniel Vorcaro ou pelo Banco Master.

Segundo ele, no segundo semestre de 2023, um terceiro que dizia agir em nome do banqueiro procurou a empresa e pediu uma demonstração do serviço. A Saftec teria então publicado entre duas e cinco matérias sobre Vorcaro como uma "degustação".

Lucena disse que o contato não resultou em contrato e que não sabe identificar o intermediário.

Lucena afirmou que a empresa possui cerca de 500 portais de notícias, aproximadamente 470 registrados em nome da pessoa jurídica e os demais em nome de pessoa física. Descreveu o trabalho como gestão de reputação e de crise, com produção de conteúdo positivo sobre pessoas, empresas, produtos e serviços. Segundo ele, os clientes preenchem um formulário com informações que fundamentam os textos. Disse também que a empresa atende políticos, mas negou produzir notícias falsas ou conteúdo para atacar terceiros.

Com informações de Julia Braun, da BBC News Brasil em Londres