Eleições nos EUA: pesquisas indicam vantagem dos democratas, mas estão corretas?

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- Author, Anthony Zurcher
- Role, Correspondente da BBC News na América do Norte
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- Tempo de leitura: 7 min
O Partido Democrata chega com grandes expectativas de vitória às eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, quando grande parte das cadeiras do Congresso estará em disputa nas urnas.
A baixa popularidade do presidente americano, Donald Trump (Partido Republicano), que registra índices históricos de rejeição, a insatisfação dos americanos com a alta dos preços dos alimentos e das contas domésticas e meses de pesquisas favoráveis indicam que os democratas poderão ter um bom desempenho nas eleições de terça-feira (3/11).
Segundo pesquisas de opinião, os democratas lideram a disputa por um número de cadeiras bem superior às 218 necessárias para conquistar o controle da Câmara dos Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil. Nas principais disputas pelo Senado, os candidatos democratas aparecem empatados ou com uma pequena vantagem sobre os adversários republicanos.
Uma pesquisa recente do jornal americano New York Times apontou empate na disputa pelo Senado na Carolina do Sul, Estado onde Trump venceu a democrata Kamala Harris por uma diferença de 18 pontos percentuais na disputa presidencial de 2024. Levantamentos recentes da CNN mostram os democratas à frente no Texas, Kansas e Maine.
Mas será que as pesquisas estarão próximas do resultado das urnas?
A recente história política dos EUA está repleta de casos em que as pesquisas de intenção de voto apontaram números bem diferentes das urnas, mesmo quando realizadas poucos dias antes da votação. Trump teve um desempenho melhor do que o apontado nas pesquisas ao vencer as eleições presidenciais de 2016 e 2024. Em 2020, Trump perdeu por uma margem pequena, embora a maioria dos levantamentos apontasse uma vitória mais folgada do democrata Joe Biden.
No início deste ano, as pesquisas indicavam que o democrata Abdul El-Sayed venceria as prévias do seu partido para o Senado em Michigan por uma diferença de pelo menos dez pontos percentuais. Mas a vantagem foi de apenas um ponto percentual. Já nas prévias democratas para o governo do Wisconsin, o candidato que chegou a liderar as pesquisas por quase 20 pontos percentuais acabou derrotado por uma diferença inferior a um ponto percentual.
Segundo Clifford Young, presidente da Ipsos Public Affairs, empresa especializada em pesquisas de opinião e de mercado, realizar pesquisas eleitorais se tornou mais difícil nos últimos anos. Com o abandono dos telefones fixos e o hábito crescente de filtrar chamadas, está cada vez mais complicado entrar em contato com os americanos. Além disso, muitas das pessoas que atendem às ligações dos institutos de pesquisa estão menos dispostas a participar dos levantamentos.
"Os conservadores, especialmente os de extrema direita, tendem a rejeitar muito mais as instituições", afirma Young. "Eles não participam de nada. Odeiam o sistema. Esse é o desafio."
Se os eleitores republicanos estiverem sendo sistematicamente subrepresentados nas pesquisas, e os institutos não levarem isso em conta ao elaborar seus modelos de projeção de votos, os resultados das pesquisas poderão apresentar uma distorção favorável aos democratas.
Essa é uma das razões pelas quais se tornou mais difícil para os institutos de pesquisa estimar quais eleitores efetivamente comparecerão às urnas.
Uma das possíveis explicações para Trump ter superado as expectativas nas eleições presidenciais anteriores é que seus apoiadores, muitos dos quais não tinham o hábito de votar, compareceram às urnas em número maior do que apontavam as pesquisas de opinião.
Essa imprevisibilidade é um dos principais fatores por trás das controvérsias mais expressivas das pesquisas eleitorais recentes, embora, na maioria dos levantamentos de institutos respeitados, a diferença entre os números projetados e os resultados efetivos tenha sido de apenas alguns pontos percentuais.
Em uma disputa acirrada, poucos pontos percentuais podem determinar a vitória ou a derrota de um candidato. E, neste ano, muitas das principais disputas pelo Senado dos EUA estão nessa faixa de diferenças pequenas nas pesquisas.

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Nos últimos anos, as pesquisas para as eleições gerais de meio de mandato têm se mostrado mais próximas do resultado das urnas em parte porque Trump, com sua capacidade incomum de mobilizar eleitores americanos insatisfeitos para votar, não estava entre os candidatos.
Em 2022, quando Biden era presidente, os levantamentos indicavam que os democratas iriam contrariar as expectativas e evitariam uma derrota esmagadora nas urnas de meio de mandato, apesar da baixa popularidade de Biden.
Embora o Partido Democrata tenha perdido o controle da Câmara dos Representantes, a diferença de cadeiras foi pequena, e os democratas mantiveram a maioria no Senado dos EUA.
Embora os resultados das prévias partidárias deste ano tenham trazido surpresas maiores, Young afirma que essas disputas sempre foram imprevisíveis, já que muitos eleitores decidem em quem votar apenas na última hora. Por isso, esses resultados não devem ser vistos como sinal de que as pesquisas atuais para as eleições gerais estejam erradas.
É comum que o partido do presidente tenha um desempenho ruim nas eleições de meio de mandato.
Um dos exemplos mais marcantes dos últimos anos ocorreu em 2010, quando os republicanos conquistaram mais de 60 cadeiras na Câmara dos Representantes que antes pertenciam aos democratas e ampliaram sua representação no Senado.
Na época, a economia ainda enfrentava dificuldades para se recuperar da crise financeira, e os republicanos conservadores estavam preocupados com a reforma do sistema de saúde proposta pelo então presidente Barack Obama (Partido Democrata). As pesquisas já apontavam uma derrota dos democratas, mas não daquela dimensão.
Em 2026, a situação se inverteu: os democratas estão na oposição, e a economia voltou a ser uma das principais preocupações dos eleitores. Ainda assim, há vários motivos para que o partido não tenha um desempenho tão bom quanto o histórico dessas eleições poderia indicar ou quanto alguns esperam diante da baixa popularidade de Trump.
Em primeiro lugar, boa parte das regiões onde haverá disputas importantes nesta eleição deu uma vitória folgada a Trump na eleição presidencial de apenas dois anos atrás. São territórios onde os republicanos têm vantagem eleitoral.
Além disso, mudanças realizadas ao longo dos anos nos limites geográficos dos distritos eleitorais da Câmara dos Representantes reduziram o número de cadeiras que costumam mudar de partido a cada eleição.
Em outras palavras, imagine que a maioria dos eleitores do distrito A vote no candidato 1, mas em outras eleições já elegeu o candidato 2, e que a maioria do distrito B vote no candidato 3, mas também já tenha eleito o candidato 4. O redesenho eleitoral (chamado de gerrymandering em inglês) troca os distritos A e B por distritos em C e D de um jeito que ambos tenham regiões onde vivem uma grande maioria de eleitores que sempre votam no candidato 1 e 3. Assim, as pessoas que costumam votar nos candidatos 2 e 4 se tornam uma pequena maioria, evitando que os distritos fiquem trocando de partidos a cada eleição (os chamados pêndulos).
Outro fator é o aumento da polarização política, que reduziu o número de eleitores dispostos a mudar de preferência partidária. Segundo alguns especialistas, as escolhas dos eleitores estão cada vez mais consolidadas.
Os republicanos também contam com uma vantagem financeira, que lhes permitiu destinar centenas de milhões de dólares à veiculação de propagandas contra os adversários nas últimas semanas de campanha.

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Os modelos estatísticos usados nas pesquisas eleitorais procuram acompanhar as mudanças nos fatores que influenciam o resultado das eleições. Uma pesquisa bem elaborada também deve levar em conta possíveis problemas que possam comprometer a confiabilidade dos dados.
Toda pesquisa tem uma margem de erro, que representa o grau de incerteza estatística calculado com base no tamanho da amostra em relação ao conjunto da população. Por isso, a média dos resultados de várias pesquisas pode oferecer uma previsão mais precisa do que um levantamento isolado.
No momento, mesmo que as pesquisas apresentem distorções semelhantes às observadas nas últimas eleições presidenciais, os números ainda indicam que os democratas poderão ter um bom desempenho em 3/11. Além disso, os erros das pesquisas podem favorecer qualquer um dos partidos. Nas eleições estaduais e especiais do ano passado, os democratas tiveram resultados melhores do que os apontados pela maioria dos levantamentos, porque seus eleitores compareceram às urnas em número maior do que o esperado.
O fato de Trump realizar comícios nos últimos dias de campanha em Estados onde venceu com folga em 2024 deve ter aumentado as esperanças dos democratas de que as pesquisas internas dos republicanos estejam apontando dificuldades para os candidatos conservadores.
Ainda assim, eleitores podem mudar de opinião até a última hora — e, às vezes, mudanças de última hora podem alterar os rumos de uma disputa.
Em outros casos, os indecisos, que ainda representam uma parcela importante do eleitorado em muitas dessas eleições, acabam optando pelo mesmo candidato ou partido que já votaram antes.
As pesquisas eleitorais sempre terão algum grau de incerteza. Saber lidar com essa imprevisibilidade exige tanto conhecimento científico quanto experiência.
"Acho que estamos fazendo um trabalho melhor", afirma Young. "Mas parte do problema que sempre enfrentamos não está apenas nos institutos de pesquisa. Também precisamos lidar com seres humanos. E os seres humanos são complicados."






















