Quem é Pedro Alliana, o novo presidente do Paraguai com quem o poderoso Partido Colorado tenta se recuperar

    • Author, Ayelén Oliva
    • Role, BBC News Mundo
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  • Tempo de leitura: 5 min

Em questão de horas, Pedro Alliana passou de vice-presidente do Paraguai a presidente do país.

Alliana tomou posse nesta sexta-feira (06/11), pouco depois de o Congresso aprovar a destituição de Santiago Peña, acusado de conflito de interesses devido aos seus laços com o conglomerado que administra o Banco Ueno.

O Banco Central interveio esta semana na instituição financeira privada após detectar problemas de solvência. A decisão deixou milhões de paraguaios e diversas instituições públicas sem acesso às suas economias.

Nas ruas de Assunção, centenas de pessoas comemoraram a decisão do Senado que encerrou o mandato de Peña. No mesmo dia de seu impeachment, o ex-presidente foi preso em sua casa, na capital, Assunção.

"Nossos concidadãos que estão passando por um momento difícil hoje por causa do colapso financeiro serão totalmente indenizados. Não os abandonaremos", anunciou Alliana nesta sexta-feira em seu discurso de posse perante o Congresso.

Mas o poder não mudou de mãos. A Associação Nacional Republicana (ANR), conhecida como Partido Colorado, conseguiu conter o impacto político da crise.

"Agradeço ao meu partido e reafirmo minha lealdade aos seus princípios doutrinários", enfatizou o novo presidente, em meio a uma salva de palmas dos senadores presentes na câmara.

Longe de perder a Presidência, o partido conseguiu manter o poder substituindo Peña por Alliana, um líder do Partido Colorado que já havia manifestado a intenção de concorrer ao cargo em 2028.

"Pedro Alliana é uma figura política com uma longa trajetória no partido", disse à BBC Rocío Duarte, doutora em Ciências Políticas e professora da Universidade Católica de Assunção.

Enquanto o ex-presidente Peña representava o tecnocrata especializado em finanças, Alliana sempre foi visto dentro do partido como garantia de estreita ligação com a base e os membros do Partido Colorado.

Segundo Duarte, Alliana é um líder que conhece a "estrutura burocrática do partido" em todo o país, o que lhe permitiu consolidar sua posição como uma figura de grande influência na política nacional.

Mas qual foi a trajetória política que o levou do extremo sul do Paraguai à Presidência da República?

O caminho para a Presidência

"Venho de Ñeembucú, uma terra onde a nação lutou pela sua própria existência", disse o novo presidente nesta sexta-feira.

Pedro Alliana nasceu em Pilar, cidade onde as ruas marrom-avermelhadas e as antigas igrejas coloniais de adobe se debruçam sobre o Rio Paraguai, em frente à província argentina de Formosa.

Foi nesta cidade no extremo sul do Paraguai, longe dos centros de poder e mais acostumada a olhar para o rio do que para o Palácio de López, que ele iniciou a trajetória política que, décadas depois, o levaria à Presidência.

Filho de uma família com ligações políticas, ingressou ainda jovem nas fileiras do Partido Colorado, a força conservadora que dominou grande parte da história política paraguaia.

Ao contrário de Peña, cuja formação acadêmica e carreira técnica eram amplamente reconhecidas, a educação de Alliana foi envolta em controvérsia.

O jornal ABC Color noticiou que ele estudou Relações Internacionais na Universidade Autônoma de San Sebastián, após verificar suas credenciais junto ao Ministério da Educação.

Segundo o site oficial do partido, Alliana se define como um "homem da terra". A organização destacou, há alguns anos, sua compreensão das necessidades dos pequenos, médios e grandes produtores.

Sua carreira política começou em 2006, quando concorreu sem sucesso à Prefeitura de Pilar. Longe de o afastar da política, essa derrota acabou impulsionando sua ascensão.

Dois anos depois, tornou-se governador de Ñeembucú, departamento onde Pilar está localizada, no mesmo ano em que o Partido Colorado perdeu a presidência do Paraguai pela primeira vez em sua história.

Após concluir seu mandato como governador, Alliana deu o salto para o Congresso. Foi eleito deputado em 2013 e rapidamente consolidou sua influência dentro do partido governista.

Ele chegou a presidir a Câmara dos Deputados e renovou seu mandato para um segundo período, solidificando sua posição como um dos líderes mais influentes do Partido Colorado.

Dessa forma, Alliana construiu ao longo dos anos uma carreira baseada na organização de base, que o levou da periferia política de Ñeembucú ao topo do Partido Colorado.

"O Paraguai que herdamos hoje tem necessidades urgentes que nos obrigam a estar nas ruas, nos hospitais e no campo", declarou ele nesta sexta-feira perante o Senado.

A relação com Cartes

Em um momento de delicada estabilidade política, diversas vozes no Paraguai concordam que Alliana não teria chegado à Presidência sem a aprovação do ex-presidente Horacio Cartes.

"Alliana esteve muito ligado ao ex-presidente Cartes desde que entrou na política, tornando-se parte de seu círculo íntimo", explica Rocío Duarte.

No entanto, algumas semanas atrás, Alliana parecia ter se distanciado de Cartes.

Segundo Alliana, o afastamento ocorreu quando Horacio Cartes tentou impor seu vice na chapa presidencial.

Contudo, após a queda de Peña, a situação mudou. Na tarde de quinta-feira, o então vice-presidente reapareceu ao lado de Cartes em uma reunião do partido, onde ambos apoiaram o processo de impeachment contra o presidente.

"Como Cartes conseguiu se manter afastado da crise do Banco Ueno, é provável que haja uma reaproximação entre essas facções", acrescenta Duarte.

Agora, com a Presidência em suas mãos, o desafio imediato de Alliana será lidar com a crise desencadeada pelo fechamento do Banco Ueno.

Talvez isso o ajude a construir uma liderança que permita à ANR se recuperar em tempo recorde e estar bem posicionada para as eleições de 2028.