'Não há palavras pra descrever a dor': a mobilização de um vilarejo para ajudar vítimas de acidente de trem na Espanha

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- Author, Lorena Motos
- Role, Enviada especial da BBC News Mundo
- Reporting from, Urda (Toledo, Espanha)
- Published
- Tempo de leitura: 8 min
Urda é um daqueles lugares que visitei muitas vezes para contar suas histórias. Nunca imaginei que voltaria para contar uma tragédia como esta.
Sirenes, ambulâncias, bombeiros e pessoas caminhando com o olhar perdido. Foi o que encontrei na quarta-feira (28/10), quando cheguei a este pequeno vilarejo da província de Toledo, em Castilla-La Mancha, ao sul de Madri.
Naquela manhã, dois trens colidiram nas proximidades de Urda, deixando pelo menos 74 mortos e dezenas de pessoas feridas.
Sou de Castilla-La Mancha e trabalhei durante muitos anos na televisão pública regional. Foi assim que visitei Urda tantas vezes, principalmente no fim de setembro, durante a peregrinação do Cristo de Urda, uma celebração que reúne milhares de pessoas da região.
Ao chegar, tive dificuldade para reconhecer o lugar.
O barulho, a correria, as equipes médicas, os carros que iam e vinham, os colegas da imprensa, a movimentação frenética. E, em meio a tudo isso, pessoas que tentavam ajudar quem tinha acabado de sair dos trens.
A cena diante dos meus olhos não tinha nada a ver com a imagem que eu guardava daquele vilarejo.
E uma coisa é viver tudo isso como jornalista; outra, como alguém que é dali.
Uma comunidade mobilizada para ajudar
A adrenalina de jornalista nos impulsiona a seguir em frente, mas a cena era dantesca.
Quando cheguei ao local do acidente, a cerca de 8 km do vilarejo, vi os vagões destruídos dos dois lados do aterro e os últimos feridos que ainda conseguiam caminhar se dirigindo aos ônibus disponibilizados para transportá-los.
Do outro lado, uma fila de ambulâncias atendia os feridos em estado mais grave.
A cabeça funciona quase no piloto automático, mas há cenas que a gente não esquece.
E, enquanto a imprensa ainda tenta reconstruir o que aconteceu, em Urda há moradores que passam horas fazendo tudo o que podem para ajudar.

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Alguns moradores transportaram feridos em seus próprios veículos; outros levaram água e comida ao ginásio municipal, onde as vítimas recebiam atendimento.
Foi o caso de Soraya Rodríguez, de 40 anos, dona de um dos supermercados do vilarejo. Quando abriu as portas do estabelecimento naquela manhã, ela ainda não sabia o que estava acontecendo.
"Até que as pessoas começaram a chegar para buscar água, leite e comida", conta.
A reação foi imediata. Os funcionários distribuíram a água e o leite que tinham, prepararam sanduíches e ofereceram embutidos, frutas, luvas e copos descartáveis.
Parte dos produtos foi doada pelo supermercado. Outra parte foi comprada por moradores que quiseram colaborar.
"Tenho orgulho de ser de Urda e de como meu povo reagiu", diz.
Ouvi-la me faz lembrar de algo que vi muitas vezes nos vilarejos de Castilla-La Mancha: quando acontece algo grave, as pessoas se mobilizam sem que ninguém precise dizer o que fazer. Cada um procura uma maneira de ajudar.
O mesmo impulso levou Alejo García de Blas, um morador de Urda de 70 anos, a agir. Ele estava andando de bicicleta quando o acidente aconteceu.
O estrondo e o silêncio
Como costuma fazer todos os dias, Alejo saiu de bicicleta por volta das 8h da manhã.
Em determinado momento do percurso, viu um trem passar e perder velocidade até parar. Aproximou-se por curiosidade, tirou algumas fotos e continuou pedalando.
Era o trem da Iryo, que, como saberíamos mais tarde, ficou parado nos trilhos e tentou arrancar duas vezes antes de ser atingido pelo outro trem.
Alejo seguiu seu caminho e, depois de percorrer cerca de três quilômetros, ouviu um estrondo.
"Como a explosão de uma bomba", lembra.

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Ele esperou alguns minutos antes de voltar. Ao chegar ao local do acidente, viu os trens e as pessoas que começavam a sair deles.
Mas o que mais ficou em sua memória não foi o barulho da colisão, e sim o que veio logo depois do impacto.
"O silêncio que havia ali. Era um silêncio incomum", conta.
Alejo foi um dos primeiros moradores a chegar ao local.
Ajudou a retirar uma cerca para facilitar o acesso de ambulâncias e ficou orientando os veículos que chegavam sem saber exatamente por onde entrar.
Depois, começaram a chegar as equipes de saúde, os bombeiros e mais moradores. Alguns feridos conseguiam caminhar, mas outros estavam desorientados, com as roupas manchadas de sangue e feridos.
"Foi impressionante a quantidade de gente que se mobilizou", observa.
'Não há palavras para descrever tanta dor'
A menos de um quilômetro do local do acidente fica a propriedade rural de José Luis Díaz García, agricultor e pecuarista de 69 anos.
José Luis chegou rapidamente ao local, inclusive a áreas que não podiam ser acessadas a partir do ponto reservado à imprensa. Ele presenciou cenas que poucas pessoas poderiam relatar.
"Aquilo parecia uma zona de guerra", conta.
A primeira imagem que viu foi a que agora está em todos os veículos de comunicação: os vagões retorcidos e destruídos.

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Depois vieram, conta ele, "as imagens que não saem da cabeça de quem esteve lá".
Uma cena ficou especialmente marcada em sua memória.
Uma mulher grávida de sete meses viajava em um dos trens. Depois do acidente, o marido recebeu uma ligação dela e foi procurá-la em Urda.
Ele a encontrou ferida, com o rosto ensanguentado e dificuldades para caminhar.
José Luis, acompanhado de um guarda civil, ajudou a mulher a chegar até o marido. "E eu disse a ele: 'Rapaz, você e sua mulher merecem o céu'."
Enquanto fala, sua voz embarga. Ele conta que desabou emocionalmente várias vezes e que um dos momentos que mais o abalaram foi acompanhar alguns padres em oração pelas vítimas que morreram no acidente.
"O que vivemos é uma lembrança que vamos carregar por toda a vida. É algo impressionante, horrível. Não há palavras para descrever tanta dor."
Ele também prefere não detalhar o que presenciou: "Há outras coisas que não vou contar. São muito duras, duríssimas".
E eu entendo. Há cenas que não precisam ser transformadas em palavras para que possamos compreender a dimensão do que aconteceu.

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Quando desligo a câmera, nós dois nos olhamos e comentamos que nossos rostos parecem familiares.
Tentamos lembrar. José Luis foi presidente da confraria do Cristo de Urda, e eu já o havia entrevistado antes, durante as peregrinações.
Outra vida. Outras circunstâncias.
De Urda a Toledo: a espera das famílias
Passei boa parte do dia entre Urda e o local do acidente.
Em meio à tristeza, reencontrei antigos colegas que não via havia anos. Isso tornou a tarde um pouco menos amarga.
Mas a cobertura continuava, e segui para Toledo, capital da província, a 75 quilômetros do local da colisão. Já era noite e quase 12 horas haviam se passado desde o acidente.
Fui ao Hospital Universitário, onde estava internada a maioria dos feridos. Ali, a tragédia era vivida de outra maneira.
O saguão do hospital era enorme, com paredes e portas brancas, tudo de um branco asséptico. O pé-direito era muito alto. Havia silêncio. Até uma certa tranquilidade.
Ao fundo, um biombo delimitava e escondia parte do espaço. Uma placa avisava: "Familiares das vítimas do trem".
Continuavam chegando pessoas desnorteadas, com os olhos cansados de tanto chorar.
Elas passavam horas tentando localizar seus entes queridos, perguntando de um lado para outro, à espera de uma ligação.
Foi ali que encontrei María. Ela carregava uma sacola com algo para o jantar e ia subir ao quarto onde estava internada sua filha, de 40 anos. A mulher viajava de Madri a Sevilha com uma colega de trabalho.
"Ela está viva, e isso não é pouca coisa", repetia.
A filha sofreu contusões graves e fraturou vários ossos. Passou por uma cirurgia e, embora estivesse fora de perigo, María aguardava para saber como seria sua recuperação.
A colega que viajava com ela ainda não havia sido encontrada.
Ao fundo, um homem pegava um papel com informações sobre um abrigo onde poderia passar a noite. Segurava o papel com o olhar perdido.

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Ao longo de todo o dia, vi a mesma expressão em outros rostos. Pessoas exaustas de esperar, sem saber onde procurar nem que notícias receberiam.
"Passamos o dia inteiro na região do acidente, esperando em Urda. Agora estamos aqui e nada. Ninguém nos diz nada", contou um deles.
Perguntei quem era seu familiar.
"Minha mulher", respondeu. E começou a chorar. "Desculpe, mas não consigo falar."
'Como isso pôde acontecer?'
Nas últimas horas, ouvi histórias muito diferentes.
As de pessoas que conseguiram sair dos trens e caminhar até os ônibus. As de moradores que foram ao local do acidente para ajudar. As de quem ofereceu comida, água e os próprios carros.
E também as de quem, ao anoitecer, ainda esperava notícias de alguém querido que não conseguia localizar.
Urda é um vilarejo pequeno, com pouco mais de 2.500 habitantes, acostumado a receber milhares de pessoas durante a peregrinação do Cristo de Vera Cruz.
Mas ninguém espera que uma tragédia dessa dimensão aconteça perto de casa, em seus campos, em uma linha ferroviária como a que liga Madri a Sevilha, parte do cotidiano da região.
Voltar a Castilla-La Mancha para contar o que aconteceu tem algo de volta para casa.
Conheço esta terra e sei que, por trás de cada notícia, há pessoas, famílias e comunidades inteiras tentando seguir em frente.
Ao fim do dia, já à noite, ainda havia muitas perguntas sem resposta sobre o que aconteceu e por quê.
Ainda há tempo para investigar e descobrir as causas do acidente.
Mas duas perguntas foram repetidas muitas vezes pelas pessoas que encontrei durante a cobertura:
"Como isso pôde acontecer? Por que aconteceu de novo?".























