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'Fomos abandonados em sacolas quando éramos bebês e descobrimos, décadas depois, que éramos irmãos'
- Author, Redação
- Role, BBC News Mundo
- Published
- Tempo de leitura: 7 min
"Fui encontrado dentro de uma sacola, vestido de azul."
Criado em uma família acolhedora e carinhosa em Belfast, na Irlanda do Norte, David McBride sempre soube que era adotado.
Mas foi só aos 15 anos, quando solicitou uma certidão de nascimento para ingressar no Exército, que percebeu o pouco que se sabia sobre suas origens.
O documento estava praticamente em branco. Os nomes dos pais biológicos constavam como desconhecidos, assim como informações sobre o local e até mesmo a data de seu nascimento.
Seu pai adotivo contou o pouco que sabia. McBride havia sido abandonado e, ainda bebê, fora encontrado no banco da frente de um carro destrancado.
Juntos, McBride e seu pai decidiram descobrir tudo o que pudessem sobre sua origem. Começaram a pesquisar na biblioteca pública local, examinando minuciosamente recortes de jornais.
Na época em que foi encontrado, o caso ganhou as manchetes porque o abandono de crianças era algo praticamente desconhecido na Irlanda do Norte naquele período.
McBride explica que a Igreja muitas vezes oferecia apoio — ou pelo menos abrigo — a mães e bebês que poderiam ter nascido fora do casamento.
"Se uma mulher engravidasse fora do casamento, era rejeitada. E havia uma tendência de esconder tudo."
Os recortes de jornal não trouxeram muitas informações, mas confirmaram que ele havia recebido bons cuidados. "Fui bem alimentado e bem cuidado."
Ele imaginava que sua mãe fosse jovem e estivesse assustada. Decidiu tentar encontrá-la.
Os 'gêmeos do tartã'
No entanto, as décadas passaram e, apesar das buscas e até de sua participação em um programa da BBC sobre crianças abandonadas, McBride encontrou poucas respostas.
Então, incentivado pela irmã, decidiu fazer um teste de DNA.
O resultado mudou tudo. Ele tinha uma irmã biológica.
"Foi uma surpresa maravilhosa... Foi como se o Natal tivesse chegado."
O nome dela era Helen Ward. Mas, em vez de responder às perguntas dele sobre a mãe, ela própria tinha muitas perguntas: também havia sido abandonada quando era bebê.
"Fui encontrada dentro de uma sacola verde, em uma cabine telefônica", conta Ward. "A primeira coisa que pensei foi que éramos os gêmeos da sacola."
Eles não eram gêmeos. Tinham nascido com sete anos de diferença e foram encontrados em lados opostos da fronteira irlandesa. Ainda assim, as semelhanças eram impressionantes.
"Um caminhoneiro me encontrou", conta Ward. "Dentro da sacola havia uma mamadeira quente e uma muda de roupa. Eu estava muito bem vestida e agasalhada."
Assim como McBride, Ward foi criada por uma família adotiva amorosa. Mas, quando se tornou mãe, decidiu que precisava saber mais sobre sua mãe biológica.
Ela entrou em contato com uma assistente social da região onde havia sido encontrada e recebeu uma certidão de nascimento semelhante à que McBride tinha visto anos antes. Nela, constavam as informações "mãe desconhecida", "pai desconhecido" e "menina encontrada desprotegida em uma cabine telefônica".
"Fiquei muito abalada. A gente tem tantas perguntas, e é muito difícil encontrar respostas."
Ward também fez suas próprias buscas nos anos seguintes: contou sua história em um programa de rádio que recebia ligações dos ouvintes e encontrou tanto o policial que havia cuidado de seu caso, em 1969, quanto o caminhoneiro que a encontrou.
Mas foi depois de ganhar de uma amiga um kit de teste de DNA para fazer em casa que ela encontrou o irmão que havia perdido. "Foi incrível", conta. "Eu não parava de me beliscar para ter certeza de que não estava sonhando."
Uma nova busca
Quando finalmente se encontraram pessoalmente e reconheceram características físicas um no outro, a experiência foi quase avassaladora.
"Você tenta assimilar tudo. Tem tanta coisa para dizer que parece que vai explodir", relata Ward.
"Assim que nos conhecemos, tudo ao nosso redor pareceu deixar de existir", diz McBride.
Mas, quando uma busca chegou ao fim, outra foi retomada: a pelos pais.
Por fim, descobriram que a mãe havia morrido aos 90 anos, pouco antes de os dois se conhecerem. O pai havia falecido anos antes.
Ainda assim, conseguiram reconstruir algumas partes da história da família.
"Nossa mãe era do interior. Nosso pai era da cidade", conta McBride. "Ela era muito mais jovem. O fascínio pela cidade a levou do litoral oeste da Irlanda para Dublin. Nosso pai era maestro em Dublin. Ela provavelmente o conheceu quando frequentava os salões de dança. Eles tiveram um caso que durou 40 anos ou mais."
McBride acredita que, para o relacionamento ter durado tanto tempo, os dois deviam estar apaixonados. Mas era uma relação complicada.
Ele era casado. Além disso, era protestante, enquanto ela era católica.
Em uma época em que a Irlanda era profundamente dividida por diferenças religiosas e continuava socialmente conservadora, David acredita que os dois estavam simplesmente rompendo tabus demais.
"Católicos e protestantes. Filhos nascidos fora do casamento... Que chance eles tinham?", questiona.
Um terceiro irmão
No entanto, ainda havia mais uma surpresa à espera: Ward se lembrou de uma história que havia lido durante seus anos de investigação e começou a se perguntar se poderia ter outro irmão.
"A história era sobre um bebê encontrado em uma cabine telefônica em 1965", conta. "Ele estava dentro de uma sacola, com uma mamadeira quente. Todos os detalhes da história dele também faziam parte da minha história e da de David."
Uma jovem australiana que assistiu a um programa de televisão feito por McBride e Ward sobre a busca dos dois começou a pensar no próprio pai irlandês, John. Descobriu-se que ele era, de fato, irmão biológico dos dois.
"Ele era o filho do meio", explica Ward. "Quando nós três nos sentamos para nos conhecer, foi surreal. Você está olhando para a sua família. E surgem mil perguntas. Mas, naquele momento, foi mágico."
Essas perguntas sem resposta deixam um vazio que, eles reconhecem, talvez nunca seja preenchido.
Mas tanto Helen quanto David afirmam que não podem julgar a mãe pelas decisões que tomou.
"Deve ter sido horrível para ela", diz Helen, "abandonar os três bebês pouco tempo depois de carregá-los na barriga e dar à luz".
David se lembra de ter visto um vídeo da mãe já idosa, agarrada a uma boneca e se recusando a soltá-la.
"Fico pensando se, perto do fim da vida, a mente dela dizia: 'Esta é minha filha. Perdi três filhos e você não vai tirá-la de mim'."