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'Direita terá que decidir se desembarca do bolsonarismo', diz pesquisador de Harvard

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- Author, Iara Diniz
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Published
- Tempo de leitura: 7 min
A chegada de Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos, três dias depois de perder a eleição presidencial e questionar a legitimidade do resultado, reacende um dilema na direita brasileira: continuar aliada ao bolsonarismo ou se distanciar de um movimento que, além de acumular duas derrotas consecutivas na disputa pelo Planalto, mantém uma relação conflituosa com as instituições democráticas.
A avaliação é do historiador Sidney Chalhoub, pesquisador de Harvard e professor do Departamento de História da Unicamp, em entrevista à BBC News Brasil.
"A direita democrática vai ter que decidir se aliar-se à extrema direita é bom negócio. Perderam duas eleições com essa aliança", afirma Chalhoub.
Para ele, romper com o bolsonarismo é condição para que esse campo político volte a ter chances de vencer uma eleição presidencial. "Sem expurgar o golpismo, a direita continuará a perder."
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e herdeiro político do clã, Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista.
No segundo turno, porém, o senador foi derrotado pelo presidente, que conquistou 4,4 milhões de votos a mais que o adversário.
Logo após o resultado, Flávio não reconheceu a vitória de Lula e afirmou que pediria a anulação das eleições.
No dia seguinte, o senador gravou um vídeo em que disse que pediria a cassação do resultado e afirmou que nunca havia pensado em deixar o país. Cerca de 24 horas depois, saiu do Brasil rumo aos Estados Unidos com a família, pousando na manhã desta quarta-feira (28/10).
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A viagem ocorreu depois de o senador ser intimado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a entregar seus passaportes.
O pedido de apreensão aconteceu dentro do inquérito que investiga suposta lavagem de dinheiro de Flávio em parceria com seu amigo advogado Willer Tomaz.
A sequência de acontecimentos, segundo Chalhoub, segue um padrão observado há anos na direita radical brasileira e, em alguns aspectos, em movimentos semelhantes no exterior.
"A alegação de fraude na eleição auxilia a narrativa de perseguição política, que justifica o ato seguinte, que é a fuga para evitar responder por crimes pelos quais líderes da direita são investigados", afirma, citando os ex-deputados Alexandre Ramagem, Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli, que também deixaram o Brasil.
Ramagem e Zambelli já haviam sido condenados quando saíram do país. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, era investigado e foi condenado posteriormente.
Para o historiador, a derrota de Flávio nas eleições, seguida da ida aos EUA também coloca em questão o futuro do bolsonarismo no Brasil e sua capacidade de continuar se impondo como a principal força da direita brasileira, como ocorreu nos últimos três pleitos.
Ele avalia que o bolsonarismo "dificilmente voltará a ter a mesma força eleitoral que já alcançou".Isso, no entanto, não significa que tenha deixado de ser relevante.
O PL elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados e terá a maior representação no Senado, o que o manterá, segundo Chalhoub, como um ator importante na política brasileira.
"A minha impressão é que o bolsonarismo continua a ser uma força política importante. Só não sei se será hegemônico na direita o suficiente para fazer novos candidatos competitivos daqui a quatro anos", diz Chalhoub.
A derrota eleitoral também não encerra, na avaliação do historiador, um ciclo de reação conservadora que ele situa na última década, sobretudo a partir da eleição de 2014 e do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.
Para Chalhoub, esse movimento tem precedentes na história brasileira. Ele cita as reações a avanços de direitos após a abolição da escravidão e no período que antecedeu o golpe militar de 1964.
"Toda vez que há um avanço de direitos, tem de haver uma reação conservadora", afirma.
Por isso, ele considera prematuro concluir que esse processo tenha chegado ao fim com a derrota de Flávio Bolsonaro. Para ele, ainda é incerto qual será o fôlego dessa reação nos próximos anos.
"É difícil prever o fôlego dessa reação conservadora em curso. Não estou dizendo que ela acabou agora com a segunda derrota eleitoral. Até pela dificuldade de derrotá-la, você vê como ela está mais viva do que nunca", diz.
'Baluarte da luta contra avanço da extrema direita'

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O presidente Lula havia acabado de ser declarado reeleito pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quando Chalhoub começou a receber mensagens de colegas de diferentes partes do mundo que, nos últimos dias, acompanhavam com preocupação os desdobramentos da eleição brasileira.
"Eram mensagens parabenizando o Brasil, porque todos estão conscientes de que esta é uma eleição de significado global. Ela pode realmente significar o início de uma virada nessas tendências de destruição dos órgãos internacionais, de ataque a todas as políticas climáticas", afirma Chalhoub.
Na avaliação do historiador, a vitória de Lula pode representar um ponto de inflexão em um cenário internacional marcado pelo avanço das forças conservadoras, que ganharam eleições e chegaram ao governo nos EUA, em diferentes países europeus e na América Latina.
"É muito impressionante ter uma vitória contra essa corrente, contra essa reação conservadora que, nesse momento, também é global", afirma.
A vitória ganha um peso especial por ocorrer durante a Presidência de Donald Trump nos Estados Unidos, em contraste com a eleição de 2022, quando o democrata Joe Biden ocupava a Casa Branca.
"Eu realmente acho que essa é a vitória mais importante do Lula em todas as vitórias dele, sem querer desfazer da vitória de 2022, mas em 2022, por exemplo, não tinha pressão americana contra", afirma o historiador.
Nesse contexto, o resultado brasileiro pode representar um contraponto às tentativas de Trump de ampliar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina.
Para Chalhoub, o impacto pode ser ainda maior se a vitória de Lula vier acompanhada de uma derrota expressiva dos Republicanos nas eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, as midterms.
"O tipo de domínio que Trump tem desejado exercer sobre a América Latina pode esfumaçar de uma hora para outra", afirma.
"Acredito que o Brasil vai se tornar nos próximos quatro anos um baluarte da luta contra o avanço da extrema direita na América Latina inteira", acrescenta.

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Virada inédita
A vitória de Lula foi inédita na história das eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização: nunca antes um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar havia vencido a disputa no segundo.
A virada, considerada improvável por muitos analistas, é explicada pelo historiador a partir de três fatores: a força histórica do PT, a retomada da mobilização nas ruas e a articulação dessa presença física com a militância digital.
Fundado em 1980, o PT esteve no segundo turno de todas as eleições presidenciais desde 1989. Para Chalhoub, essa presença contínua e a liderança de Lula dão ao partido uma força política "que não pode ser subestimada".
O historiador pondera, porém, que o partido já não contava com a mesma capacidade de mobilização presencial de outras épocas, quando sua atuação junto a movimentos sociais e comitês populares tinham maior peso.
Ao mesmo tempo, demorou a desenvolver estratégias eficazes de mobilização nas redes digitais.
Foi um mudança nessas duas frentes que, na avaliação de Chalhoub, ajudou a tornar possível a virada.
A militância digital, coordenada sobretudo pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) por meio do canal de WhatsApp "Exército de Lula" — que chegou a reunir mais de 10 milhões de pessoas — somou-se à volta de apoiadores às ruas.

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A mobilização se traduziu na redução da abstenção no segundo turno. A eleição de 2026 registrou a maior queda na abstenção entre o primeiro e o segundo turno desde a redemocratização: 1,87 ponto percentual, de 21,08% para 19,21%.
"O normal é que a abstenção aumente no segundo turno; ela diminuiu. Essa combinação entre militância digital e tomada das ruas conseguiu produzir um verdadeiro milagre", afirma Chalhub.
'Apoiadores terão de seguir nas ruas'
O historiador considera que essa capacidade de mobilização terá um papel central durante o quarto mandato de Lula, diante de um bolsonarismo que deve seguir politicamente mobilizado e fazendo forte oposição ao governo no Congresso.
"A única maneira de Lula conseguir segurar a onda em algumas situações é se essas pessoas forem para a rua e fizerem uma resistência, como já aconteceu recentemente", afirma, citando as manifestações contrárias à proposta de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.
Para Chalhoub, a mobilização popular que tornou possível a virada de Lula pode servir de referência para forças políticas de outros países que tentam conter o avanço da direita.




























