Segundo a versão mais recente do discurso, o presidente brasileiro não deve mencionar Trump nominalmente — ao menos não em tom de crítica.
A soberania nacional e a defesa da democracia devem ocupar posição de destaque, segundo membros do governo e diplomatas envolvidos no planejamento. O presidente também pretende defender o multilateralismo e mudanças na estrutura da ONU, além de abordar as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e a situação em Gaza.
Outro assunto que ganhou importância nos últimos dias é o combate ao crime organizado. A expectativa é que Lula defenda a cooperação internacional no enfrentamento às facções, mas preserve a ideia de que políticas de segurança dentro do território brasileiro devem respeitar a soberania do país.
O tema ganhou uma dimensão especialmente sensível na relação com Washington após o governo Trump classificar as organizações brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas, elevando as preocupações do Planalto com eventuais iniciativas americanas que possam ser interpretadas como interferência em assuntos domésticos.
Nas relações comerciais, Lula deverá criticar a imposição unilateral de barreiras tarifárias pelos EUA, sem necessariamente transformar a fala em um ataque direto ao governo americano.
A intenção, segundo pessoas familiarizadas com as discussões, é encontrar um equilíbrio: Lula quer apresentar uma defesa enfática da autonomia brasileira, mas evitar um confronto que prejudique a tentativa de melhorar as relações com Washington.
Esse cálculo ganhou uma dimensão adicional com a proximidade das eleições. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro, apenas 12 dias depois do discurso de Lula na ONU.
Analistas avaliam que é praticamente impossível separar completamente o pronunciamento internacional da campanha doméstica, ainda que o governo sustente que a fala não terá caráter eleitoral.
Para Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da universidade King's College London, um confronto direto com Trump traria poucos ganhos diplomáticos ao Brasil. Ao mesmo tempo, o momento eleitoral impede que o presidente brasileiro pense apenas na repercussão internacional de suas palavras.
"Um confronto direto com Trump teria pouco benefício diplomático para o Brasil. Ao mesmo tempo, Lula chega à ONU a poucos dias das eleições, então o público doméstico tem um peso grande neste discurso. Eu esperaria uma defesa bastante clara da soberania e da democracia, mas não necessariamente com uma fala nominal contra Washington", afirma.
Mas segundo a especialista, a busca de Lula por uma relação funcional com Trump e a defesa da soberania brasileira diante do eleitorado não são necessariamente estratégias excludentes.
"Lula pode buscar uma relação pessoal funcional com Trump e, ao mesmo tempo, enfatizar perante o eleitorado brasileiro que existem limites claros para essa aproximação", diz ela. "O cálculo é evitar uma escalada que prejudique interesses econômicos e diplomáticos brasileiros, mas sem dar a impressão internamente de que o Brasil está cedendo."