'Meus pais escolheram morrer juntos — e eu fiquei sozinho com o luto'

    • Author, Linda Pressly
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  • Tempo de leitura: 8 min

Importante: esta reportagem contém detalhes que podem ser perturbadores para alguns leitores.

Em uma manhã bem cedo de junho de 2024, Bas parou ao lado do motorhome dos seus pais, estacionado numa marina ensolarada no norte da Holanda.

Seus pais, Jan e Els, passaram a maior parte da vida de casados na água. Agora, com mais de 70 anos, não conseguiam mais administrar uma casa flutuante. Seu motorhome, estacionado perto dos iates e botes, era a melhor alternativa.

Jan e Els entraram no carro do filho. Bas ligou o motor. Essa seria a última vez que ele levaria os pais a algum lugar. Para Jan e Els, essa viagem — até o asilo local — seria a última.

Às 10h30 daquela manhã, médicos administrariam a medicação letal a eles e os médicos os levariam à morte juntos, num procedimento conhecido na Holanda como eutanásia em dupla.

É legal e raro, mas a cada ano mais holandeses optam por encerrar suas vidas dessa maneira.

Três dias antes da consulta fatal no centro de cuidados paliativos, Jan e Els deram uma entrevista à BBC em sua van.

Jan convivia com dores constantes, sequelas de anos transportando cargas pelas vias navegáveis interiores da Holanda. Els havia sido diagnosticada com demência. A história deles foi noticiada e comentada no mundo todo.

Agora, mais de dois anos depois, o único filho do casal descreve a tentativa de persuadir a mãe e o pai a adiarem suas mortes, ao mesmo tempo que apoiava a decisão deles de pôr fim à vida.

Ele revela o peso emocional que a decisão dos pais lhe impôs e a profunda solidão que se seguiu.

A jornada

Bas havia planejado um percurso panorâmico até o asilo, passando pelos prados e canais da Frísia.

"Ainda me lembro de toda a viagem", diz ele. Sua mãe estava no banco de trás e seu pai ao lado dele. No início, eles conversaram. Els parecia resoluta quanto à decisão de optar pela eutanásia.

"Minha mãe estava convencida, tinha certeza de que deveria fazer isso", diz Bas. "Mas meu pai estava um pouco emocionado."

Jan perguntou ao filho se eles estavam fazendo a coisa certa. Bas ficou surpreso — ele achava que seria a mãe dele que teria dúvidas.

"Minha mãe sempre gostou muito da vida", diz ele. "Lembro-me de ela me dizer: 'Eu adoraria ter 80 ou talvez até 90 anos'."

Mas o pai dele vinha falando sobre eutanásia há mais de uma década por causa de todos os anos de sofrimento.

No carro, Bas tranquilizou o pai. Assim que Jan se acalmou, eles dirigiram em silêncio, ouvindo música e observando a paisagem passar.

Nos meses que antecederam a viagem da família, Bas tentou persuadir seus pais a adiarem suas mortes.

"Tentei convencê-los a ficar um pouco mais — por que não esperar até o inverno, ou até o ano que vem?"

Bas estava em conflito. Embora achasse que a decisão de seus pais de pedir a eutanásia fosse a correta, ele não queria que eles partissem.

"Meu pai esteve nessa situação por 10 a 15 anos, então ele provavelmente poderia ter prolongado por mais alguns anos. Mas acho que esperar mais um ano colocaria minha mãe em apuros..."

Se Els adiasse o pedido de eutanásia, ela corria o risco de ter o Alzheimer agravado, o que poderia significar que ela não seria considerada capaz de tomar a decisão de pôr fim à própria vida.

No centro de cuidados paliativos

Bas encontrou uma vaga para estacionar.

"Meu pai se despediu do meu carro — ele gostou do meu carro e disse: 'Bom trabalho' e 'obrigado'."

"E então entramos", diz Bas. "Imagine fazer isso — estar no lugar deles, fazer essa viagem e essa caminhada. É surreal."

Durante as duas horas seguintes, familiares e amigos do casal iam e vinham. Eles relembraram histórias e ouviram música. Em certo momento, passou pela cabeça de Bas interromper a cerimônia.

"Eu tive um pressentimento: 'OK, vamos embora... Vamos entrar no carro e ir embora'", diz ele. "Mas eu não queria tocar em nada que os deixasse inseguros — eu havia apoiado todo o processo [de eutanásia]."

"É melhor manter todos calmos e aproveitar o momento para se despedir."

Pouco antes das 10h30, os médicos chegaram para injetar em Jan e Els a medicação letal que os mataria. O casal estava deitado lado a lado em camas de hospital. E naqueles momentos finais, antes de perderem a consciência, Bas testemunhou a proximidade de seus pais.

"Eu os vi talvez três ou quatro vezes em toda a minha vida caminhando de mãos dadas", diz ele. "Mas agora eles estavam deitados ali, de mãos dadas. E isso me deu uma sensação muito boa — eles estão realmente fazendo isso juntos."

Bas descreve a primeira meia hora após seus pais pararem de respirar como "um fato consumado" — eles não estavam mais vivos.

"Então você percebe qual é a situação — é uma sensação inimaginável."

No centro de cuidados paliativos, Bas foi tomado pela tristeza. Ele começou a sentir uma profunda solidão.

"O luto é algo muito, muito profundo de se vivenciar", diz ele, "e eu não tenho irmãos nem irmãs — eu realmente me senti sozinho."

Se fomos criados por pai e mãe, quando um deles morre, podemos compartilhar nossas lembranças e tristezas com o outro como parte do processo de luto. Mas Jan e Els já haviam falecido.

"Foi como se minhas pernas tivessem sido cortadas", lembra Bas.

Seu sofrimento também foi físico — ele se sentiu mal por quatro ou cinco semanas. Seu corpo doía.

"Eu realmente não recomendaria isso para outras pessoas, e talvez essa seja uma conclusão difícil", diz ele. "Talvez tenha sido a melhor opção para eles [meus pais], mas tê-los perdido ao mesmo tempo foi muito, muito impactante."

Jan e Els partiram cedo demais?

Entre as pessoas que planejam solicitar a eutanásia na Holanda, especialmente aquelas com demência como Els, escolher o momento certo para pôr fim à própria vida pode ser complicado.

  • 9.958 pessoas na Holanda optaram pela eutanásia em 2024.
  • Dos que optaram pela eutanásia em 2024, 427 tinham demência — seis apresentavam demência em estágio avançado.
  • Naquele ano, 108 pessoas optaram pela eutanásia em dupla (54 pares) e faleceram em um mesmo ano.

Fonte: Comitês Regionais de Revisão da Eutanásia (RTE)

Além de demonstrarem que estão sofrendo de forma insuportável, os pacientes devem ser avaliados por médicos e considerados capazes de decidir por si mesmos se desejam morrer.

Isso pode causar imenso sofrimento em pacientes com demência que consideram a eutanásia, explica a Dra. Rozemarijn van Bruchem, geriatra e especialista em ética do Centro Médico Erasmus, em Roterdã.

"Eles pensam... Eu tenho esse poder agora, mas agora é cedo demais. Mas talvez no mês que vem seja tarde demais. Então, como eu decido em que momento preciso iniciar esse processo para ver se preencho os critérios, para ver se posso obter a eutanásia? E se eu esperar muito, posso ter perdido a oportunidade?"

A Dra. van Bruchem afirma que é porque a eutanásia é legal na Holanda que seus pacientes vivenciam essa ansiedade. E eles sabem que a permissão para morte assistida em casos de demência avançada é rara.

Em países onde a eutanásia é proibida, como o Reino Unido e o Brasil, pessoas com demência podem enfrentar muitos desafios, mas raramente precisam ponderar essas opções de vida ou morte — como Els precisou fazer.

Em 2024, ela disse à BBC que ela e o marido não podiam esperar, pois havia a possibilidade de o Alzheimer dela progredir.

E Jan estava decidido a morrer com Els. Ele disse à BBC que talvez estivesse partindo cedo demais, mas que havia vivido sua vida plenamente — sua vida estava completa.

'Tudo foi dito'

Jan e Els estavam muito conscientes do peso que suas decisões sobre o fim da vida representavam para o filho. Bas acompanhou todos os encontros dos pais com seus respectivos médicos durante o processo de eutanásia. Houve conversas abertas em família.

Muitas vezes, nos arrependemos quando um ente querido morre — especialmente por coisas que talvez não tenhamos dito. Isso não aconteceu com Bas. Dois dias antes da consulta de Jan e Els no centro de cuidados paliativos, na segunda-feira, 3 de junho, ele escreveu uma carta para eles.

"Tinha umas oito páginas", diz Bas. "Fui até o motorhome no final da noite de sábado. Li a carta inteira para eles. Falava sobre as nossas vidas e agradecia-lhes pelo que tinham feito."

Jan e Els ficaram profundamente comovidos. E assim como raramente demonstravam afeto um pelo outro em público, também não costumavam ser muito afetuosos com o filho.

"Você sente que eles te amam, mas isso se demonstra através de ações, não necessariamente com palavras ou abraços", diz Bas. "Minha mãe me abraçava mais quando teve demência, mas meu pai nunca me abraçou — eu nunca recebi um abraço."

Isso mudou no motorhome naquele último sábado à noite. Jan abraçou Bas.

"Ele fez isso depois daquela carta. Talvez tenha sido um dos melhores momentos."

"Tudo foi dito."

*Caso seja ou conheça alguém que apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, ou caso você tenha perdido uma pessoa querida para o suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda:

- O Centro de Valorização da Vida (CVV), por meio do telefone 188, oferece atendimento gratuito 24h por dia; há também a opção de conversa por chat, e-mail e busca por postos de atendimento ao redor do Brasil;

- Para jovens de 13 a 24 anos, a Unicef oferece também o chat Pode Falar;

- Em casos de emergência, outra recomendação de especialistas é ligar para os Bombeiros (telefone 193) ou para a Polícia Militar (telefone 190);

- Outra opção é ligar para o SAMU, pelo telefone 192;

- Na rede pública local, é possível buscar ajuda também nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h;

- Confira também o Mapa da Saúde Mental, que ajuda a encontrar atendimento em saúde mental gratuito em todo o Brasil.

- Para aqueles que perderam alguém para o suicídio, a Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases) oferece assistência e grupos de apoio.