Por que a disputa pelo Senado no Texas pode ser decisiva nas eleições dos EUA

James Talarico, candidato democrata ao Senado dos EUA pelo Texas
Legenda da foto, Os democratas esperam que James Talarico, de 37 anos, consiga pôr fim a uma sequência de décadas de vitórias republicanas nas disputas pelo Senado no Texas
    • Author, Anthony Zurcher
    • Role, Da BBC News em Lubbock, no Texas (EUA)
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A disputa por uma vaga no Senado dos Estados Unidos pelo Texas pode ser decisiva para determinar qual partido controlará o Congresso no próximo ano — uma conquista significativa por si só —, mas, para os dois partidos, ela representa muito mais do que isso.

Para os democratas, a sequência de derrotas em eleições estaduais já dura mais de três décadas. No segundo Estado mais populoso dos EUA, os liberais estão fora do poder há uma geração.

Mas as pesquisas indicam que o candidato do partido, James Talarico, de 37 anos, pode estar prestes a romper essa barreira e conquistar para os democratas uma cadeira no Senado pelo Texas pela primeira vez desde 1988.

Esse seria um cenário dos sonhos para os democratas — e um possível pesadelo para os republicanos.

"Se os democratas conseguirem, acho que isso vai provocar muita reflexão e causar um grande abalo psicológico no Partido Republicano do Texas e de todo o país", disse Brendan Steinhauser, estrategista republicano de campanhas que atua no Texas.

O que está em jogo ajuda a explicar por que essa disputa pelo Senado se tornou a mais cara da história dos EUA, com gastos totais superiores a meio bilhão de dólares.

Para Talarico, a ascensão tem sido extraordinária: até o ano passado, ele era um democrata relativamente desconhecido, com atuação na política estadual.

Na semana passada, na terça-feira à noite, a fila para ver o ex-professor de fala mansa, que estudou para se tornar pastor cristão, contornava o prédio do Fiesta Center, em Lubbock, e seguia pelo amplo estacionamento até uma estrada movimentada.

Nessa cidade das planícies do oeste, com cerca de 250 mil habitantes e que votou esmagadoramente no presidente Donald Trump dois anos atrás, a visita de um candidato democrata às vésperas de uma eleição era algo incomum.

"É simplesmente incrível acompanhar isso", disse Aaron Gonzalez, presidente do Partido Democrata no condado de Hockley, vizinho a Lubbock. "Desta vez é diferente."

Apoiadores do candidato democrata ao Senado dos EUA pelo Texas, James Talarico, o aplaudem enquanto ele discursa em um comício de campanha.

Quando Talarico subiu ao palco diante de cerca de 3 mil apoiadores — enquanto outros mil ouviam o discurso por alto-falantes do lado de fora —, ele apresentou uma mensagem familiar a muitos democratas em todo o país neste ano, ainda que com um toque texano.

Ele atacou o establishment político conservador, que, segundo afirmou, é indiferente às dificuldades econômicas dos americanos comuns. Condenou a influência corrosiva do dinheiro de grandes doadores na política. E prometeu promover uma "agenda abrangente contra a corrupção" no Senado.

"Os texanos estão prontos para a mudança", disse. "Estamos fartos do extremismo e da corrupção. Estamos fartos da política da divisão e prontos para algo novo."

O slogan das duas últimas semanas de campanha — "clear eyes, full hearts, can't lose" (ou "olhos atentos, corações valentes, não tem como perder", em tradução livre para o português) — vem de Friday Night Lights, uma popular série de TV do início dos anos 2000 sobre um time de futebol americano de uma escola de ensino médio de uma pequena cidade texana.

Sua seleção musical é dominada pela música country texana, com sonoridade característica. Ele celebra os "tacos" de café da manhã do Texas, cita o lendário cantor e compositor texano Lyle Lovett e menciona com frequência que seus vínculos com o Estado remontam a oito gerações.

Na plateia em Lubbock, Andrew Robinson, estudante da Universidade Texas Tech, nas proximidades, gostou do que ouviu. Mas o otimismo do jovem de 26 anos é cauteloso, após uma vida inteira acompanhando os democratas tentarem — e fracassarem — conquistar espaço no estado.

"Uma vitória de Talarico significaria muito", disse. "Não tenho tido vontade de continuar no Texas. E, se o governo mudasse, isso poderia me dar um motivo para ficar."

Nesta vista aérea, um outdoor com imagens do presidente Donald Trump, Jesus Cristo e o Pé Grande está localizado ao lado da Interestadual 45 em 30 de outubro de 2026 em Rice, Texas.
Legenda da foto, Donald Trump venceu no Texas nas eleições presidenciais de 2016, 2020 e 2024

Para os republicanos, uma vitória democrata no Texas teria um significado muito diferente.

Praticamente no mesmo horário em que Talarico discursava para seus apoiadores no Fiesta Center, Trump — acompanhado do candidato republicano ao Senado, Ken Paxton — estava a poucos quilômetros dali, em um local com o dobro da capacidade.

"Se vocês saírem para votar, teremos uma vitória extraordinária no Texas", disse o presidente à multidão.

A visita de Trump a Lubbock, uma cidade tradicionalmente republicana, sugere que o partido está preocupado com a participação eleitoral até mesmo nas regiões mais conservadoras do Estado. Outros republicanos texanos também expressaram essa preocupação.

"Entendam: podemos perder o Texas", disse o senador texano Ted Cruz em seu podcast na sexta-feira. "Os democratas estão levando muito mais gente às urnas do que os republicanos."

Don Huffines, que concorre ao cargo de responsável pelas finanças do Estado, fez um alerta ainda mais grave. "O Texas é a base do Partido Republicano na América", escreveu ele no X.

"Quando a base racha, tudo desmorona. Quando perdemos o Texas, perdemos os Estados Unidos."

Há semanas, líderes partidários vêm alertando que uma vitória dos liberais no Texas poderia ter consequências desastrosas.

Eles temem que uma vitória de Talarico incentive mais democratas locais a disputar cargos estaduais e federais. Candidatos mais competitivos, com mais recursos, poderiam desencadear um efeito bola de neve semelhante ao avanço democrata observado em outros Estados do sul, como Geórgia, Carolina do Norte e Virgínia.

"Acho bastante claro que os republicanos — especialmente candidatos, consultores, operadores de campanha e outras pessoas atuantes no partido — veem isso como uma ameaça real", disse Steinhauser.

"Acabou a época em que se podia ignorar isso e dizer que o Texas nunca ficaria azul."

O candidato republicano ao Senado dos EUA, Ken Paxton, reage durante um comício eleitoral ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump.
Legenda da foto, O candidato republicano Ken Paxton tem o apoio de Trump — e um passado controverso na política do Texas

Para que a corrida para o Senado do Texas chegasse ao ponto em que as pesquisas recentes sugerem que Talarico tem uma vantagem pequena, mas estável, foi necessária uma confluência única de eventos e dinâmicas políticas – uma "tempestade perfeita", nas palavras de Steinhauser.

"Tudo o que poderia dar certo para os democratas está dando certo", disse ele, "e tudo o que poderia dar errado para os republicanos está dando errado."

Mas essa turbulência também foi provocada, em grande parte, pelo próprio Trump ao longo do último ano.

O cenário nacional é desfavorável aos republicanos.

Os eleitores estão frustrados com o alto custo de vida, incluindo o preço da gasolina, e, em grande medida, responsabilizam as políticas tarifárias de Trump e a guerra com o Irã.

A corrupção política se tornou uma preocupação crescente. Em uma pesquisa recente do relatório político Cook, democratas, independentes e muitos republicanos apontaram os "bilionários e as corporações gananciosas" e os políticos em busca de "ganhos pessoais" como responsáveis.

Questões específicas do Texas também contribuíram para criar um ambiente hostil ao partido que está no poder.

Pesquisas e eleições especiais recentes no Texas indicam que os eleitores hispânicos — muitos dos quais passaram a apoiar Trump e ajudaram na sua eleição em 2024 — se decepcionaram com as políticas de fiscalização migratória do governo.

Os hispânicos representam quase um terço da população do Estado e, em mais de uma semana de votação antecipada no Texas, têm comparecido às urnas em números historicamente elevados.

A construção de centros de dados, que os republicanos do Texas haviam apresentado como um investimento bem-vindo no Estado, tem sido alvo de críticas generalizadas, sobretudo em áreas rurais tradicionalmente conservadoras.

O governador do Texas, Greg Abbott, que também enfrenta uma disputa acirrada pela reeleição, anunciou recentemente uma moratória de um ano para a construção de instalações de inteligência artificial no Texas — um reflexo da rapidez com que o tema se tornou um passivo político.

"Isso é ruim para os republicanos", disse à BBC um estrategista político do Texas que pediu para não ser identificado. "Neste momento, estamos exigindo muito do eleitorado para que continue nos mantendo no comando."

Além disso, Paxton chega à disputa carregando o peso de seu histórico político. No início deste ano, ele derrotou o veterano senador John Cornyn em uma acirrada disputa interna do Partido Republicano.

O republicano de 63 anos conseguiu retratar Cornyn, de 74 anos, como velho demais e alheio à realidade dos conservadores do Texas. Paxton recebeu um impulso tardio poucos dias antes de vencer Cornyn no segundo turno das primárias: o apoio de Trump.

"Ken Paxton passou por muita coisa, em muitos casos, de maneira muito injusta, mas é um lutador e sabe como VENCER", escreveu Trump na Truth Social. "Nosso país precisa de lutadores e também de lealdade à causa da grandeza."

O "muita coisa" pela qual Paxton passou, mencionado pelo presidente, inclui uma acusação federal apresentada em 2015 por fraude em valores mobiliários — posteriormente retirada — e um processo de impeachment aberto em 2023 pela Câmara dos Representantes do Texas, controlada pelos republicanos, por acusações de corrupção, suborno e abuso de poder.

O Senado do Texas acabou absolvendo Paxton depois que Trump interveio para pressionar líderes republicanos do Estado.

Tudo isso fez com que Paxton acumulasse vários críticos — e inimigos — no Texas, inclusive dentro do próprio partido.

Talarico, por outro lado, tem se mostrado um candidato forte. O deputado estadual derrotou uma adversária de peso, a deputada federal por Dallas Jasmine Crockett, nas primárias democratas.

Desde que conquistou a indicação do partido, ele manteve a liderança nas pesquisas, apesar de uma enxurrada de propagandas negativas — muitas delas financiadas pelo homem mais rico do mundo, Elon Musk, cuja empresa SpaceX tem sede no Texas.

Musk, sozinho, direcionou mais de US$ 170 milhões para a disputa. O comitê MAGA Inc., ligado a Trump, contribuiu com US$ 40 milhões.

Embora Paxton tenha se mostrado um arrecadador de recursos ineficaz, o dinheiro de grupos externos gasto em seu nome inundou as emissoras de TV e rádio do Estado — chegando até mesmo a eventos esportivos envolvendo times do Texas que são transmitidos para todo o país.

Os anúncios atacaram Talarico por declarações anteriores em apoio a pessoas trans, por ter chamado "homens brancos radicalizados" de ameaça terrorista doméstica e por criticar os setores de combustíveis fósseis e de carne bovina — dois interesses poderosos no estado.

Talarico se distanciou de alguns desses comentários anteriores, argumentando que muitos foram tirados de contexto e "não foram bem colocados", ou eram "deliberadamente provocativos" ou "constrangedores".

Enquanto isso, o democrata texano se revelou um arrecadador de recursos bem-sucedido: reuniu mais de US$ 140 milhões em doações ao longo da campanha e estabeleceu um recorde de arrecadação em três meses para um candidato ao Senado.

O financiamento permitiu que Talarico respondesse a Paxton, destacando suas controvérsias anteriores e se defendendo dos ataques republicanos.

Ele frequentemente recorre à sua formação religiosa — é neto de um pastor batista do sul dos EUA e passou um período em um seminário —, incorporando referências bíblicas aos discursos de campanha.

Há uma passagem em particular à qual Talarico tem recorrido ultimamente: o conhecido confronto do Antigo Testamento entre o destemido Davi e o gigante Golias.

"Estamos enfrentando nossos próprios Golias", disse ele em Lubbock. "Os megadoadores bilionários, os interesses especiais das grandes empresas, todo o establishment de Washington. O poder deles é real, mas o nosso também."

Mas o poder dos democratas do Texas já foi superestimado no passado. Em 2018, o deputado federal Beto O'Rourke registrou números recordes de arrecadação, atraiu grande atenção nacional e, no fim, perdeu para o senador texano Cruz por pouco mais de 2 pontos percentuais.

A liderança de Talarico nas pesquisas, embora estável, continua próxima da margem de erro na maioria dos levantamentos. Apelos republicanos de última hora, assim como as repetidas visitas de campanha de Trump, podem levar mais conservadores às urnas no dia da eleição e eliminar qualquer vantagem democrata obtida na votação antecipada.

Na terça-feira passada, dentro do pequeno escritório do Partido Democrata em um comício de Talarico em Amarillo, a professora aposentada Terri Mills ouvia o discurso do candidato.

Apesar de reconhecer as décadas de fracassos e falsas esperanças do Partido Democrata, ela disse que se permitia ter esperança de uma vitória democrata mais uma vez.

"Já me iludi antes, sabe?", disse ela. "Mas sinto que desta vez é um pouco diferente."