5 razões para o desastre do partido de Trump nas eleições nos EUA

    • Author, Jake Lapham
    • Role, BBC News
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  • Tempo de leitura: 5 min

Opositores do presidente republicano Donald Trump, os democratas conquistaram uma vitória esmagadora nas eleições de meio de mandato nos EUA, assumindo o controle da duas casas do Congresso americano nesta quarta-feira (4/11).

Embora o partido do presidente em exercício geralmente tenda a ter uma noite ruim nessas eleições, a dimensão da derrota republicana está sendo vista como uma rejeição retumbante aos dois anos de Trump na Casa Branca.

De eleitores furiosos a um presidente impopular, aqui estão cinco razões pelas quais os republicanos perderam tantas cadeiras.

1. Custo de vida em disparada

De uma ponta a outra do país, eleitores em todos os Estados Unidos têm se deparado com o aumento vertiginoso do preço de itens essenciais. Essa indignação era palpável nas eleições em distritos eleitorais importantes.

"Os preços da gasolina, dos alimentos, tudo está subindo", disse uma eleitora da Carolina do Norte à BBC antes das eleições, acrescentando que havia mudado seu voto do Partido Republicano para o Partido Democrata nesta eleição.

Os preços subiram 3,7% no acumulado até setembro, impulsionados pelo aumento dos preços dos combustíveis e da energia. O preço médio do diesel no varejo dos EUA, no início de outubro, ficou pouco abaixo do recorde de US$ 6,52 (R$ 36) por galão registrado em setembro, segundo dados do governo.

Quase oito em cada dez eleitores (79%) disseram que a inflação causou dificuldades graves ou moderadas para eles e suas famílias no último ano, de acordo com dados de pesquisas eleitorais.

E mais de seis em cada dez entrevistados atribuíram a culpa a Trump, dizendo acreditar que os preços mais altos do que o normal eram consequência das políticas do presidente.

2. Guerra impopular contra o Irã

Um dos principais fatores para o aumento dos preços foi a guerra com o Irã, iniciada pelos Estados Unidos e Israel em fevereiro.

Os preços dos combustíveis dispararam depois que o Irã, em retaliação, fechou efetivamente o Estreito de Ormuz, estrangulando uma importante via de passagem para o petróleo e o gás natural liquefeito (GNL) do mundo.

Desde então, os eleitores americanos têm pago o preço nos postos de gasolina.

A guerra provou ser amplamente impopular entre a maioria dos americanos. Para os republicanos apoiadores do MAGA (sigla para o movimento trumpista Make America Great Again), também representou uma quebra de promessa na agenda de campanha America First (América em Primeiro Lugar) de Trump, na qual ele prometeu que não haveria mais guerras.

Aproximadamente seis em cada dez (63%) dos entrevistados em uma pesquisa eleitoral disseram que os EUA tomaram a decisão errada ao adotar medidas militares contra o Irã.

Em outro estudo, três quartos dos eleitores (74%) disseram que o conflito foi um fator crucial ou importante em seu voto para o Congresso.

Na manhã seguinte à eleição, Trump admitiu que a guerra teve um papel na derrota, mas insistiu, em entrevista à Fox News, que não teve outra escolha senão intervir para impedir que o Irã obtivesse uma arma nuclear.

3. Mensagem disciplinada dos democratas

A dimensão e o alcance dessa onda democrata foram possibilitados por alguns candidatos fortes que se mostraram autênticos, especialmente nos redutos tradicionalmente republicanos.

Eles mantiveram uma mensagem firme e organizada sobre o custo de vida e o acesso à saúde.

O ex-professor James Talarico e o pastor Adam Hamilton também falaram sobre sua fé de uma maneira que tocou o coração das pessoas no Texas e no Kansas, respectivamente.

Na Carolina do Sul, a democrata Annie Andrews surpreendeu a todos com uma vitória inesperada. Ex-pediatra, sua ênfase na acessibilidade dos cuidados de saúde encontrou eco em um país onde muitos consideram o sistema falho.

O ex-funcionário da saúde pública Abdul El-Sayed, que triunfou no Michigan e garantiu a permanência do Partido Democrata naquela eleição, fez do lema "tirar o dinheiro da política e colocar dinheiro no seu bolso" um de seus principais slogans.

O senador democrata Jon Ossoff, reeleito na Geórgia, fez do custo de vida e da corrupção temas centrais de sua campanha. A vitória tranquila do político de 39 anos em um estado que Trump venceu duas vezes só alimenta os rumores de uma possível candidatura à presidência em 2028.

Até mesmo o próprio Trump elogiou os democratas, dizendo à Fox News que eles "fizeram um bom trabalho".

Por outro lado, alguns candidatos republicanos, como Ken Paxton no Texas, foram criticados por conduzirem campanhas fracas e pouco focadas nas preocupações dos eleitores.

4. A impopularidade de Trump

Duas das questões que mais desagradaram os eleitores – a disparada dos preços e a guerra com o Irã – estavam diretamente ligadas ao presidente.

Seus índices de aprovação caíram até mesmo entre os eleitores republicanos, o que tornou alguns dos estados que o apoiaram em 2024 especialmente vulneráveis.

Ele pediu aos eleitores que imaginassem que ele estava na cédula eleitoral, num esforço para mobilizar seus apoiadores.

Mas, após mais de uma década como figura central na política americana, alguns veem esses resultados como evidência de que o brilho da marca Trump pode estar se dissipando.

Em um contexto de crescente frustração, tornar-se o foco da campanha republicana foi arriscado e parece ter se voltado contra ele.

Nos meses que antecederam a votação, as pesquisas indicaram que muitos americanos queriam que Trump se concentrasse mais em suas preocupações com o aumento vertiginoso dos preços.

Em seu último discurso de campanha, na segunda-feira, em Washington, ele falou longamente sobre seu controverso projeto de renovação do espelho d'água que estava atrás dele, na capital americana.

5. Eleitores latinos e negros mudam novamente de opinião

Há dois anos, uma tendência de apoio aos republicanos entre alguns eleitores latinos (também chamado de hispânicos, pela língua espanhola) e negros ajudou Trump a garantir uma vitória decisiva. Parece que essa tendência se reverteu nestas eleições de meio de mandato.

Os democratas conquistaram as três cadeiras na Câmara dos Representantes nos distritos eleitorais predominantemente latinos ao longo da fronteira entre o Texas e o México.

De acordo com uma análise do jornal New York Times, os condados com maioria latina registraram uma mudança de mais de 22 pontos percentuais contra os candidatos republicanos ao Senado, em comparação com a eleição presidencial de 2024.

A mudança é maior do que em qualquer outro grande grupo demográfico do país, afirmou o repórter de dados Jeff Adelson.

Essa mudança ocorre em meio à indignação generalizada com a aplicação das leis de imigração, com a maioria (56%) dos americanos afirmando ter uma opinião desfavorável sobre o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), de acordo com o Pew Research Center.

Condados com maioria negra também apresentaram uma tendência significativa de voto em candidatos democratas nas eleições para o Senado.

A disputa pelo Senado está acirrada no Mississippi, estado que possui a maior parcela de eleitores negros entre os estados americanos, com cerca de 37%.

Se Scott Colom vencer, ele se tornará o primeiro democrata eleito para o Senado no Mississippi desde 1982.