'Meus pais me ensinaram a reconhecer policiais à paisana na multidão': como foi minha infância fugindo do FBI

Foto familiar em preto e branco mostra um homem e uma mulher posando em frente a um carro, com roupas informais. Há um menino pequeno com longos cabelos loiros e casaco escuro à frente deles e o homem leva um bebê às costas.
Legenda da foto, Zayd Dohrn com seus pais e seu irmão mais novo, no final da década de 1970
    • Author, Programa "Outlook"
    • Role, Serviço Mundial da BBC
  • Published
  • Tempo de leitura: 9 min

"Desde quando eu era muito pequeno, meus pais me ensinavam lições revolucionárias."

"Fui ensinado a reconhecer policiais disfarçados e agentes do FBI entre a multidão... a falar em código por telefone... Para mim, era quase como um jogo."

Zayd Ayers Dohrn não teve uma infância típica das crianças americanas.

Nas paredes do seu quarto não havia personagens da Disney, mas retratos de Ernesto "Che" Guevara (1928-1967), um dos líderes da Revolução Cubana, e do revolucionário vietnamita Ho Chi Minh (1890-1969).

Ele passou anos sem poder frequentar a escola primária. Quando a família acampava em viagem, eles não assavam marshmallows. Em pelo menos uma ocasião, eles foram explorar uma prisão federal para planejar uma fuga.

Quando Zayd nasceu, sua mãe, Bernadine Dohrn, era uma das fugitivas mais procuradas pelo FBI, o Escritório Federal de Investigações dos Estados Unidos.

Ela era líder da organização Weather Underground, que queria dar visibilidade à desigualdade e à injustiça racial nos Estados Unidos por meio de uma campanha de atentados a bomba contra edifícios simbólicos do governo americano, como o Capitólio, o Pentágono e o Departamento de Estado.

Seu pai, Bill Ayers, também foi um dos fundadores do grupo. Por isso, a família vivia com identidades falsas, se mudava com frequência e estava constantemente alerta, frente à ameaça de serem levados à prisão.

Imagem composta mostrando os cartazes de procurados pelo FBI de Bernadine Dohrn e Charles Ayres, enumerando os crimes que levaram à sua busca, como distúrbios e conspiração, e fotos de corpo inteiro, além do primeiro plano dos seus rostos de frente e de perfil
Legenda da foto, O FBI classificou o Weather Undeground como grupo terrorista nacional americano

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Mas, para Zayd Dohrn, era simplesmente uma vida normal.

"Eu sabia que o FBI estava nos perseguindo", ele conta. "Eles nunca mentiram para mim a esse respeito."

"Eles me explicaram de uma forma que, para eles, uma criança pudesse entender. Eles nos comparavam com Robin Hood. Éramos foragidos e roubávamos dos ricos para dar aos pobres, esse tipo de coisa."

Seus pais provinham de famílias brancas de classe média.

Sua mãe era uma brilhante estudante de Direito da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Mas, depois que o líder social afro-americano Martin Luther King Jr. (1929-1968) chegou à cidade, apoiando ativistas das greves dos aluguéis, em 1966, ela se envolveu ativamente na campanha e se convenceu da necessidade de uma mudança mais radical nos Estados Unidos.

O assassinato de Luther King, seguido do tiroteio policial fatal contra um dos líderes dos Panteras Negras, Fred Hampton (1948-1969), a lançou ainda mais rumo à militância radical.

"Acredito que isso fez com que minha mãe e outras pessoas como ela perdessem totalmente o controle", relembra Dohrn. "Ela considerava Hampton não só um amigo, mas um modelo a seguir, e seu governo o matou."

Primeiro plano do rosto de uma jovem de cabelo castanho, com os lábios entreabertos, como se estivesse a ponto de gritar, com outras pessoas atrás
Legenda da foto, Retrato de primeiro plano de Bernadine Dohrn como estudante ativista em meio à multidão em 1968

No caso do seu pai, a oposição ao serviço militar obrigatório e à Guerra do Vietnã (1955-1975, com participação dos EUA entre 1965 e 1973) fizeram inicialmente com que ele entrasse para o grupo.

"Naquela época, eles tinham um lema: 'Vamos trazer a guerra para casa'", segundo ele.

"A ideia era recriar a violência da Guerra do Vietnã nas ruas dos Estados Unidos... para despertar as pessoas e mostrar o que eles estavam fazendo no exterior e o que estavam fazendo para os grupos e líderes negros dentro do país."

Bombas nos bolsos

A ideia de que um grupo de estudantes de classe média pudesse colocar explosivos com sucesso em alguns dos edifícios governamentais mais protegidos do país, agora, parece algo extraordinário.

Mas, segundo Dohrn, eles souberam se aproveitar das ideias preconcebidas sobre pessoas jovens, brancas e estudadas.

Mulheres se faziam passar por secretárias e entravam em edifícios para coletar informações e colocar explosivos em lugares específicos, frequentemente nos banheiros femininos.

"Uma das vantagens é que eles eram pessoas brancas, com formação universitária, eloquentes e com bastante dinheiro, que conseguiam se movimentar por aqueles espaços de poder sem chamar muita atenção", explica ele.

Os privilégios raciais do grupo também influenciaram na sua aliança com o Exército de Libertação Negra, uma facção dissidente do Partido dos Panteras Negras.

Os ativistas brancos utilizavam seu acesso e relativa invisibilidade para apoiar os ativistas negros, até mesmo agindo como guias em fugas das prisões e outras ações ilegais.

Fotografia em preto e branco mostra uma grande grua móvel em frente a uma casa de alvenaria seriamente danificada. A fachada e os andares superiores da construção aparentemente ruíram, deixando as partes internas a descoberto em meio a escombros
Legenda da foto, Três membros do Weather Underground morreram quando uma bomba fabricada por eles explodiu no porão de uma casa em Greenwich Village (Nova York, EUA), no dia 6 de março de 1970

Uma infância diferente

À medida que Zayd Dohrn crescia, a realidade da vida clandestina marcava cada vez mais a sua infância. Sem documentos oficiais, ele não podia frequentar a escola e a maior parte dos seus amigos eram filhos de outros ativistas.

Grande parte da sua infância foi similar à de outras crianças americanas, com viagens de carro, excursões familiares e acampamentos nas férias. Mas até mesmo estas atividades tinham claro caráter revolucionário.

"Para começar, nunca visitamos a Disneylândia, nem o Capitólio dos Estados Unidos, nem nada parecido", relembra ele.

"Meus pais me levaram para ver os lugares onde ocorriam as lutas revolucionárias... onde seus heróis haviam sido assassinados... onde a polícia matou Fred Hampton, onde John Brown [abolicionista, 1800-1859] foi enforcado, o lugar onde Nat Turner [escravizado rebelde, 1800-1831] liderou sua rebelião."

"Ou seja, basicamente, foi um passeio pelos Estados Unidos como um lugar contra o qual eles lutavam", resume Dohrn.

Anos depois, ele percebeu que aquela viagem de camping familiar tinha outro propósito. O acampamento ficava a menos de 1 km de uma prisão federal onde estava detido um membro dos Panteras Negras.

Seus pais haviam aproveitado a viagem para estudar a prisão, frente à possibilidade de uma tentativa de fuga.

Jovem com gorro claro e cachecol laranja, sentada na porta aberta de um furgão, com um menino pequeno vestido com um macacão claro no colo
Legenda da foto, Zayd Dohrn quando bebê, com sua mãe

Dohrn acredita que seus pais tentavam sinceramente evitar causar danos físicos. Eles avisavam antes das explosões e os artefatos eram programados para detonar quando os edifícios estivessem vazios.

Mas, segundo ele, quando um movimento adota a violência, fica difícil evitar que ocorra uma tragédia.

"Suas decisões, às vezes, eram arriscadas, perigosas e até contraproducentes", relembra Dohrn. "Eles fizeram coisas que poderiam ter sido horríveis, terrivelmente trágicas."

Antes que ele nascesse, um acidente durante a fabricação de bombas pôs fim à vida da jovem que, na época, era namorada do seu pai e de outros dois membros do grupo.

Mesmo quando era criança, Dohrn compreendia os riscos.

"Sem dúvida, aquilo me preocupava... Eu tinha amigos cujos pais foram assassinados. Tinha amigos cujos pais ficaram na prisão por muito tempo."

Em primeiro plano, escombros e blocos empilhados atrás de uma barreira. Atrás, dois trabalhadores em frente a uma luz brilhante, observados por policiais.
Legenda da foto, Operários da construção e policiais rodeiam uma pilha de escombros em um edifício policial, após um atentado a bomba perpetrado pelo grupo Weather Underground em 1970. Ninguém ficou morto no ataque.

Orgulho e distância

Quando atingiu a idade adulta e, agora, como pai, Dohrn passou anos lidando com as decisões tomadas pelos seus pais.

Ele compara sua mentalidade com a das pessoas que se oferecem como voluntários para o serviço militar. Dohrn conta que eles acreditavam estar travando uma guerra contra o seu próprio governo e estavam dispostos a assumir as consequências pessoais.

"Sinto orgulho deles em muitos sentidos", ele conta.

"Em uma época em que a maioria das pessoas nos Estados Unidos, sobretudo os brancos, estava disposta a deixar passar a injustiça sem fazer nada a respeito, meus pais eram do tipo de pessoas que insistiam em fazer alguma coisa."

Ainda assim, Dohrn dificilmente imagina uma situação em que ele próprio decidisse sair para roubar um banco ou libertar alguém da prisão, deixando seus filhos sozinhos em casa.

"Mas também acredito que isso, por si só, é um privilégio", segundo ele. "Acredito que existam muitas pessoas pelo mundo que não têm outra opção senão arriscar suas famílias para lutar contra a opressão, contra a injustiça."

Fotografia de uma mulher com cabelos escuros até os ombros, sentada atrás de três crianças pequenas sem camisa e cabelos claros, olhando para a câmera, ao ar livre, em dia de sol e com vegetação atrás
Legenda da foto, Zayd Dohrn com sua mãe, seu irmão Malik e seu irmão adotivo Chesa

A saída

Após o nascimento do seu filho mais novo, Bernadine Dohrn finalmente decidiu chegar a um acordo com a promotoria e entregar-se às autoridades, para que a família tivesse uma vida mais normal possível.

Inicialmente, ela evitou a prisão devido ao uso de métodos ilegais e erros nas investigações do FBI. Mas, depois de se negar a testemunhar contra outros membros da Weather Underground, ela ficou presa por quase um ano.

O pai de Zayd Dohrn precisou cuidar sozinho não só dele e do seu irmão mais novo, mas também do filho de outro ativista, que estava preso.

Naquela época com cinco anos de idade, ele estava descontente e irritado, pedindo à mãe que voltasse para casa. Ela escrevia cartas para ele na prisão, tentando explicar o que havia acontecido. Ele lê estas cartas até hoje.

"Ela dizia que ser mãe era o mais importante do mundo para ela", conta Dohrn, "e que ser revolucionária também era o mais importante do mundo."

"Ela destacava, por exemplo, seus heróis, como Martin Luther King Jr., como Fred Hampton, como Malcolm X [ativista dos direitos humanos, 1925-1965], pessoas que lutaram por uma causa. E todos esses homens tiveram filhos."

Zayd Dohrn, adulto, de óculos e camisa escura, aparece de pé, abraçando seus pais Bernadine Dohrn e Bill Ayers
Legenda da foto, Bernadine, Zayd Dorhn e Bill Ayers assistiram em 2022 à estreia do podcast de Zayd, Mother Country Radicals, no Festival de Cinema de Tribeca, na cidade de Nova York

Atualmente, seus pais estão na casa dos 80 anos de idade. Zayd Dohrn os descreve como "avós incríveis", mas ri da ideia de que a idade pudesse ter suavizado suas ideias políticas.

Depois de abandonar a clandestinidade, sua mãe passou a ser professora de Direito. Ela também dedicou quatro décadas a dirigir um escritório de advocacia, ajudando pessoas que, segundo ela, haviam sido vítimas de um sistema injusto de justiça penal.

Seu pai também se tornou professor. Ele se dedicou à reforma da educação pública.

Seus métodos mudaram, mas não suas convicções.

"Eles se ofenderiam se alguém os chamasse de moderados ou liberais", afirma o filho.

Pôster simples com as palavras 'OUTLAWS OF AMERIKA' em vermelho na parte superior, um arco-íris estilizado em amarelo, laranja e rosa claro, com uma flecha vermelha no meio e as palavras: 'communiques from the weather underground' na parte inferior
Legenda da foto, Cartaz do Weather Underground, com o símbolo do arco-íris e do raio, defendendo o fim da Guerra do Vietnã, em 1971

Ouça aqui (em inglês) o episódio do programa de rádio Outlook, do Serviço Mundial da BBC, que deu origem a esta reportagem.