Análise: enfraquecido nos EUA, Trump mantém poder para intervir no exterior

    • Author, Jeremy Bowen
    • Role, Editor de Internacional da BBC News
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  • Tempo de leitura: 5 min

Donald Trump costuma recorrer a superlativos e, por isso, há uma espécie de karma na dimensão da derrota imposta a ele por uma ampla maioria dos eleitores americanos.

Não espere que ele aceite tranquilamente os momentos finais de sua carreira política. Perder o controle das duas Casas do Congresso dos EUA limita sua capacidade de ditar os rumos, manobrar e causar turbulência no país.

Mas, no exterior, provavelmente será diferente.

Como presidente dos Estados Unidos e comandante-em-chefe de suas Forças Armadas, ele mantém amplos poderes para usar o poderio militar americano.

Não é fácil prever as ações e as oscilações de Donald Trump. Como presidente, ele transformou mudanças de rumo político em armas.

Algumas coisas, porém, são constantes.

Uma delas é o seu desprezo por aqueles que considera perdedores e a sua determinação de nunca ser visto como um deles. O presidente pode se sentir tentado a ofuscar a derrota acachapante nas eleições de meio de mandato com ações no exterior.

Ele pode tentar tomar medidas que possa alardear como decisões decisivas e vitoriosas de um presidente forte, que não foi enfraquecido por uma eleição que, segundo insiste, apesar de todas as evidências, só foi perdida porque ele não estava na cédula.

A guerra com o Irã

Nas semanas que antecederam as eleições de meio de mandato, a mobilização de forças americanas e as próprias declarações de Trump, muitas vezes beligerantes, intensificaram as especulações de que os EUA estavam se preparando para voltar à guerra com o Irã.

Antes de ser hospitalizado por causa de um acidente vascular cerebral, o senador americano Chris Murphy, do Partido Democrata, participou de uma reunião sigilosa sobre possíveis opções militares para uma retomada da guerra com o Irã.

Sem entrar em detalhes, ele condenou os planos como "insanos", alertando que provocariam uma "escalada devastadora".

Há especulações de que os americanos tenham planos de bombardear infraestrutura civil.

Além de provavelmente constituir um crime de guerra, isso também poderia provocar, como resposta, ataques iranianos devastadores contra alvos equivalentes em países aliados dos EUA no Golfo.

A lista de possíveis alvos do Irã poderia começar pelos Emirados Árabes, que mantêm relações tão próximas com Israel quanto com os EUA.

O regime de Teerã acompanha de perto os acontecimentos políticos nos EUA. E não esconde sua satisfação com o fato de que as consequências do bloqueio do Estreito de Ormuz se tornaram uma questão de política interna nos EUA.

Teerã está ciente dos danos causados a Trump e aos republicanos pela alta persistente dos preços de tudo (da gasolina e do diesel aos fertilizantes agrícolas) provocada pela guerra e por seus ataques à navegação no Estreito de Ormuz.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, publicou um alerta nas redes sociais.

Ele disse: "Por consciência ou pelo custo de vida, os americanos disseram NÃO À GUERRA, e nós endossamos essa mensagem. Se o governo dos EUA trair a vontade de sua população para servir a financiadores e chantagistas internacionais, aprenderá que nosso NÃO vem acompanhado de um pesadelo."

Benjamin Netanyahu, agora primeiro-ministro interino de Israel após a eleição no país na semana passada, e que faz intensas articulações para formar um novo governo, reiterou que quer derrubar o regime islâmico de Teerã.

Relatos em Israel e nos EUA afirmam que ele está pressionando Trump a voltar à guerra.

Netanyahu não tem cadeiras suficientes para formar um novo governo com a coalizão que está deixando o poder.

Mas, se uma guerra de grandes proporções recomeçasse e se prolongasse, e se os israelenses ficassem sob ataque direto, ele poderia ter novas opções para formar um governo de unidade.

Guerra na Ucrânia

O outro grande conflito para o qual Trump pode voltar sua atenção é o que envolve a Ucrânia e a Rússia, que já dura mais do que a Primeira Guerra Mundial.

Antes das eleições, Trump suspendeu sanções contra Moscou para comprar diesel russo. Ele pode decidir prolongar e ampliar o alívio das sanções na esperança, de alguma forma, de reduzir a pressão econômica sobre os consumidores americanos.

O presidente americano também não parece demonstrar preocupação com o impacto dos ataques de mísseis balísticos russos sobre a população civil ucraniana.

Esses mísseis agora conseguem atravessar as defesas em maior número porque os pedidos da Ucrânia por mais interceptadores de fabricação americana, financiados por aliados europeus, não foram atendidos da maneira que o país precisa e deseja.

O porta-voz do Kremlin disse que a Rússia espera que os resultados eleitorais não afetem o que chamou de "esforços de Trump para alcançar a paz".

Donald Trump tem tentado de forma persistente forçar o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a fazer concessões territoriais à Rússia para chegar a um acordo que equivaleria a uma capitulação de Kiev.

Trump acrescentaria isso à sua improvável lista de guerras resolvidas e encerradas.

Sentindo o impacto da derrota eleitoral, Trump pode tentar redobrar a pressão sobre Zelensky para aceitar as concessões que o ucraniano tem rejeitado repetidamente.

É seguro dizer que Donald Trump continuará construindo monumentos a si mesmo em Washington.

Além disso, vale repetir que as previsões sobre seus próximos passos dentro e fora do país correm o risco de estar erradas. Mas é certo que ele não vai se sentar em uma cadeira de balanço presidencial e esperar seu tempo na Casa Branca acabar.

Ao longo de seu mandato, Donald Trump tem desfrutado de seu poder e demonstrado determinação em usá-lo.

Isso não vai mudar, e há uma grande chance de que ele queira mostrar que, se já não consegue abalar os EUA, ele ainda pode abalar o mundo.