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AO VIVO , Presidente do Paraguai renuncia em meio à crise de um dos maiores bancos do país, que congelou dinheiro de milhões; siga

O político do Partido Colorado e aliado de Trump anunciou nesta quinta-feira (5/11) que deixará o cargo em resposta à crise de solvência do banco digital Ueno, que levou ao bloqueio de recursos públicos e das economias de cidadãos e derrubou presidente do Banco Central.

Pontos-chave

Cobertura ao Vivo

Por Pedro Martins, Iara Diniz, Vitor Tavares, Rafael Barifouse e Felipe Corazza, da BBC News Brasil em Londres e em São Paulo

  1. 'Esta não é simplesmente a história de um banco mal administrado'

    Orkun Saka, professor e pesquisador de economia financeira da City St George's, University of London, afirma que o caso do Ueno Bank vai muito além da má gestão de uma instituição financeira.

    "Vamos deixar claro o que aconteceu. Um banco pertencente a um único conglomerado empresarial acabou concentrando as economias da maioria dos adultos do país, além de centenas de milhões de dólares de fundos de pensão", disse à BBC Mundo - serviço em espanhol da BBC.

    Saka afirma que o Banco Central já havia alertado, meses antes do colapso, para os "empréstimos excessivos concedidos pelo banco a empresas ligadas aos próprios controladores".

    "E, mesmo assim, os recursos públicos continuaram chegando. Esta não é simplesmente a história de um banco mal administrado. É um sistema em que o banco, o órgão regulador e a Presidência estavam tão estreitamente ligados que nenhum deles parecia capaz de impor limites aos outros", acrescentou.

  2. Análise: uma das economias mais estáveis da América Latina em crise

      • Author, Ayelén Oliva
      • Role, BBC Mundo, em Miami

    A renúncia repentina de Santiago Peña, em meio à crise desencadeada pela intervenção no Ueno Bank, põe em xeque a imagem do Paraguai como uma das economias mais estáveis da América Latina.

    Enquanto a Câmara dos Deputados aprovava por unanimidade a abertura de um processo de impeachment contra ele, Peña anunciou sua renúncia à Presidência do Paraguai.

    Em meio à crise, dezenas de poupadores, investidores e aposentados manifestaram preocupação e ainda aguardam saber o que acontecerá com seus depósitos bancários.

    No Paraguai, muitos veem por trás do ocorrido a influência de Horacio Cartes (2013–2018). O ex-presidente e atual presidente do Partido Colorado foi o principal articulador da candidatura de Peña, mas a relação entre os dois se deteriorou nos últimos tempos.

    Peña foi acionista do grupo proprietário do Ueno Bank até o ano passado. Já Sarah Cartes, irmã do ex-presidente, é atualmente vice-presidente do Banco Basa. Por isso, setores da oposição interpretam o episódio como uma “guerra entre bancos” pelos recursos destinados às aposentadorias.

    Nesta tarde, o Congresso deverá decidir se aceita a renúncia ou se dá continuidade ao processo de impeachment contra o presidente.

  3. Os acusados e presos no escândalo do Ueno Bank

    Cerca de 27 pessoas foram acusadas formalmente no caso do Ueno Bank, entre elas o ex-diretor do banco, Miguel Vázquez.

    As acusações incluem tentativa de fraude, quebra de confiança, conduta indevida em situações de crise e violação de obrigações.

    Segundo a imprensa paraguaia, os investigadores encontraram veículos de luxo durante uma operação de busca na mansão de Vázquez, no bairro de Mbocayaty, em Assunção.

    Um juiz determinou que ele e outros cinco ex-diretores da instituição cumpram prisão preventiva no Centro Nacional de Detenção Provisória de Assunção e na Penitenciária Padre Juan de la Vega, a 39 km da capital.

    Outros dois acusados tiveram a prisão domiciliar decretada.

  4. Partido Colorado: a legenda de Peña e Cartes que domina a política paraguaia

    Fundado em 1887, o Partido Colorado é uma das forças políticas mais tradicionais da América Latina. De orientação conservadora, a legenda governa o Paraguai quase ininterruptamente desde 1947.

    A exceção foi o período entre 2008 e 2013, quando o país foi presidido por Fernando Lugo.

    A legenda foi a base política da ditadura de Alfredo Stroessner (1954–1989) e manteve forte influência sobre a política e as instituições do país mesmo após a redemocratização.

    Em sua declaração de princípios, o partido diz defender o nacionalismo, o republicanismo, a democracia participativa e a justiça social, além da igualdade e da soberania popular.

    O Partido Colorado tem diferentes correntes internas e é presidida por Horacio Cartes, ex-presidente do Paraguai entre 2013 e 2018 e líder do movimento Honor Colorado. Santiago Peña também pertence a essa corrente e chegou à Presidência em 2023 com o apoio de Cartes, um dos principais articuladores de sua candidatura.

    Nesta quinta-feira (5/11), porém, Cartes anunciou que o Partido Colorado apoiaria a abertura de um processo de impeachment contra Peña, em meio à crise envolvendo o Ueno Bank.

  5. 'Master paraguaio'? Economista avalia que impactos de crise no Paraguai serão maiores

      • Author, Vitor Tavares
      • Role, Repórter da BBC News Brasil

    Comparações entre a crise do Ueno Bank no Paraguai a do Banco Master, no Brasil, têm sido inevitáveis.

    Isso porque os dois tinham recursos públicos investidos, especialmente da previdência social, além de terem sido alvo de questionamentos sobre operações financeiras e relações com o poder público.

    Mas a extensão do problema no Paraguai tende a ser muito maior, avaliou o economista Alexandre Barros da Costa, pesquisador que acompanha a economia paraguaia na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e Universidade Federal do Paraná (UFPR).

    Isso porque o banco tinha 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% da população adulta do país. No Brasil, o FGC, fundo formado por recursos dos bancos, teve que ressarcir cerca de 1,6 milhão de clientes do Master.

    "No curto prazo, haverá um choque na economia paraguaia pela redução do consumo das famílias e pelo impacto nos pequenos comerciantes que dependem dessa massa salarial bloqueada no Ueno para girar o negócio", diz Costa.

    O professor, porém, avalia que, mesmo diante dessa crise, a economia paraguaia não se desestabilizará, já que os dados macroeconômicos estão estáveis e que o sistema financeiro paraguaio se ampliou bem além do Ueno nos últimos anos.

    "É um ambiente de inclusão financeira, de fintechs e bancos digitais que impulsionaram a abertura massiva de contas e que contribuíram com crescimento do PIB paraguaio", diz.

  6. Cartes, o aliado que ajudou Peña a chegar ao poder e agora apoiou seu impeachment

    Horacio Cartes é uma das figuras mais influentes da política paraguaia. Ex-presidente do país entre 2013 e 2018, ele lidera o movimento Honor Colorado, uma das principais correntes do Partido Colorado, legenda à qual Peña também pertence.

    A relação entre os dois é antiga. Peña foi ministro da Fazenda durante o governo Cartes e chegou à Presidência em 2023 com o apoio do ex-presidente. Na comemoração da vitória eleitoral, Peña fez um agradecimento especial ao aliado:

    "Sua contribuição, presidente, não pode ser retribuída senão com respeito e admiração. Obrigado por esta vitória vermelha".

    A aliança se manteve mesmo depois de Cartes ser classificado pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac, na sigla em inglês), do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, como “significativamente corrupto”, em janeiro de 2023.

    Por isso, a decisão de Cartes de apoiar a abertura de um processo de impeachment contra Peña representa uma ruptura política importante. Na manhã desta quinta-feira, ele anunciou que o Partido Colorado respaldaria o processo.

    "Não estaremos do lado do desvio de recursos públicos, privados e dos aposentados. Devemos pensar nas pessoas e nos valores que defendemos no Partido Colorado. Apoiamos o impeachment do presidente da República, Santiago Peña, com o objetivo de restabelecer a institucionalidade da República", afirmou em comunicado.

    Peña apresentou sua renúncia pouco depois

  7. A diferença entre renunciar e ser destituído

    O Senado do Paraguai precisa tomar uma decisão importante hoje: aceitar a renúncia de Peña ou dar continuidade ao processo de impeachment para destituir o presidente. E a diferença não é pequena.

    Se a Casa Alta aceitar a renúncia, Peña passará a ser senador vitalício e terá direito a foro privilegiado.

    Por outro lado, se os senadores decidirem dar continuidade ao processo de impeachment, como quer a oposição, e Peña acabar destituído, perderá essa proteção.

    Se o processo continuar, o presidente permanecerá no cargo até a conclusão do julgamento, segundo a Reuters.

  8. O vídeo de renúncia do presidente do Paraguai

    O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo em um vídeo publicado nas redes sociais.

    "Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas", disse.

    De direita e alinhado ao presidente Donald Trump, Peña disse que sua prioridade neste momento é "a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao nosso sistema financeiro".

  9. Brasileira está com quase todo o dinheiro preso no Ueno Bank

      • Author, Vitor Tavares
      • Role, Repórter da BBC News Brasil

    Falamos há pouco com Renata de Brito, brasileira de 44 anos que vive em Hernandarias, no Paraguai.

    Ela tomou um susto quando abriu o aplicativo do Ueno Bank e não conseguiu mais acessar sua conta, na terça-feira.

    Era no banco que ela guardava todas as suas economias e recebia os pagamentos feitos pelos seus clientes na lanchonete que mantém no país.

    "Me falaram que estava bloqueado quando tentaram fazer um pagamento para mim. Quando fui ver, não acessava mais nada. Estou muito preocupada pelo meu negócio", diz Renata, que usava a maquininha de pagamentos do banco. Leia a reportagem sobre os brasileiros afetados aqui.

    Vale lembrar que o Paraguai tem recebido uma onda de brasileiros neste ano. Em março, estivemos na Ciudad del Este acompanhando por dias a fila de brasileiros em busca da residência no país, por motivos políticos e econômicos.

  10. Brasil não deve se manifestar oficialmente sobre o assunto

    A BBC News Brasil apurou que o Ministério das Relações Exteriores (MRE) monitora a situação econômica e política do Paraguai nos últimos dias, mas não há previsão de que o governo brasileiro se manifeste oficialmente sobre o assunto.

  11. Deputados do Paraguai aprovam por unanimidade abertura de processo de impeachment contra Santiago Peña

    A renúncia de Peña ocorreu quando o Congresso estava prestes a aprovar a abertura de um processo de impeachment contra ele.

    Os parlamentares acusavam o presidente de mau desempenho de suas funções na forma como conduziu a crise envolvendo a quebra do banco.

    Peña havia sido acionista do grupo controlador da instituição até o ano passado.

    Apesar da renúncia do presidente, os 78 deputados presentes votaram a favor da abertura do processo. Agora, cabe ao Senado decidir se dará continuidade ao processo de destituição ou se aceitará a renúncia.

  12. Paraguaios foram às ruas para protestar contra o caso Ueno Bank

    A notícia do colapso do Ueno Bank levou as pessoas às ruas nos últimos dias, exigindo respostas do governo de Santiago Peña.

  13. Com renúncia de Peña, Trump perde um aliado na América Latina

    Alinhado ao governo de Donald Trump, Santiago Peña elogiou o presidente americano em uma reunião do Escudo das Américas, horas depois da Assembleia Geral da ONU, em setembro, em Nova York.

    "Permita-me parabenizá-lo, porque acho que o senhor bateu um recorde mundial: não acredito que tenha havido um presidente americano que tenha se reunido tantas vezes com presidentes do hemisfério ocidental", disse.

    O Escudo das Américas surgiu em março como uma coalizão de Washington com governos da região politicamente próximos para combater o crime organizado.

    Neste mesmo mês, Peña assinou um polêmico acordo que autoriza a presença de militares e empresas americanas no país para combater o crime organizado. Para alguns, tratava-se de uma "obrigação estratégica". Para outros, de uma "ingerência direta" dos EUA no Paraguai.

    O convênio autorizou a presença temporária de pessoal civil e militar do Pentágono e de empresas americanas no Paraguai, para atividades relacionadas à entrada de veículos, treinamento e exercícios militares.

    A aprovação no Congresso gerou um debate acalorado, que dividiu os legisladores e a opinião pública do país.

  14. Peña pede desculpas ao anunciar renúncia

    O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia em um vídeo publicado nas redes sociais.

    "Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas", afirmou.

    Ele disse que sua prioridade neste momento é "a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao nosso sistema financeiro".

    E acrescentou: "Quero pedir desculpas ao povo se falhei em algum momento. Nunca foi minha intenção frustrar a confiança que depositaram em mim".

  15. Câmara do Paraguai rejeita impeachment do vice-presidente

    A Câmara dos Deputados do Paraguai rejeitou nesta quinta-feira (5/11) o impeachment de Pedro Alliana, vice-presidente do país.

    A decisão foi tomada em meio à crise que levou à renúncia do presidente Santiago Peña, após o fechamento do banco digital Ueno.

    Foram 48 votos pela rejeição do impeachment de Alliana e 30 a favor.

    Segundo informações da imprensa paraguaia, a decisão abre caminho institucional para que Alliana assuma a Presidência da República assim que o Congresso Nacional aceitar formalmente a renúncia apresentada por Peña.

  16. Quem é o vice-presidente Pedro Alliana

    Pedro Alliana foi eleito vice-presidente do Paraguai na chapa de Santiago Peña nas eleições de 2023, com mandato que era previsto até 2028. Ele passou a ser o sucessor constitucional depois da renúncia do presidente nesta quinta-feira (5/11), mas a situação ainda é incerta.

    Alliana é filiado à Associação Nacional Republicana, conhecida como Partido Colorado. Ele iniciou sua carreira política em 2006 e foi eleito governador de Ñeembucú, um departamento do Paraguai, equivalente a estado no Brasil, em 2008.

    Posteriormente, Alliana exerceu três mandatos como deputado federal e presidiu a Câmara dos Deputados entre 2019 e 2022. Também comandou o Partido Colorado entre 2016 e 2023.

    Sua trajetória está associada à direita paraguaia: o Partido Colorado é tradicionalmente classificado como conservador, embora reúna diferentes correntes internas.

  17. Como surgiu o Ueno Bank

    As origens do Ueno remontam a 1976, com a fundação da Financeira El Comercio.

    Após 45 anos de atividade, a financeira foi adquirida pelo Grupo Vázquez, em abril de 2021. A operação recebeu autorização do Banco Central do Paraguai (BCP) em setembro daquele ano.

    Dois anos depois, a instituição obteve autorização para se transformar no Ueno Bank e ingressar no sistema bancário paraguaio.

    O banco recém-criado se consolidou em 2024, com a incorporação do Visión Banco. A operação acrescentou à sua carteira mais de 1 milhão de clientes, uma ampla rede de agências e uma das maiores bases de depósitos do sistema financeiro do Paraguai.

    O Ueno Bank ainda é controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, um dos maiores conglomerados empresariais e industriais do Paraguai.

    O grupo é presidido pelo empresário Federico Miguel Vázquez Villasanti, que se apresentou às autoridades judiciais na terça-feira, após a Promotoria ordenar sua prisão.

    Entre os detidos estão também Juan Manuel Gustale, presidente do Ueno Bank; Julio Rey Fernández, vice-presidente; Mariana Torres Rubiani, diretora titular; e os integrantes do conselho de administração Diego Duarte Schussmuller e Alejandro Gómez Abente.

    Também foram detidos Diana Leticia Mongelós González, segunda vice-presidente do banco, e Miguel Ángel Almada Frutos, executivo ligado à Ueno Seguros e ao Grupo Vázquez.

  18. O vínculo de Santiago Peña com o Ueno Bank

    Santiago Peña foi eleito em abril 2023 para a Presidência do Paraguai.

    Até 2015, ele era um estranho na política nacional. Economista de formação, ele fez parte do Banco Central do Paraguai durante uma década, primeiro na área de Pesquisas Econômicas e depois como diretor.

    De direita, é alinhado ao presidente Donald Trump e já fez elogios públicos a ele.

    Peña figurava como acionista da Ueno Holding, que reúne empresas como a Ueno Seguros, a itti e o Grupo Vázquez, principal acionista do Ueno Bank.

    No início de 2025, o presidente afirmou que havia deixado de ser acionista da holding e negou qualquer ligação com o banco.

    "Eu fui investidor, sou economista, me especializei em Finanças e fiz um investimento há seis anos na empresa Credi Centro, que posteriormente se transformou na Ueno Holding. Nunca foi o banco Ueno. Não tenho nenhuma ligação com o banco Ueno", declarou a um grupo de jornalistas em abril de 2025.

  19. 'Caso Master do Paraguai'

    O caso do Ueno Bank passou a ser comparado, no Brasil, ao do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025 e que levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro.

    Nos dois episódios, bancos que cresceram rapidamente em poucos anos atraíram grandes volumes de recursos e acabaram no centro de questionamentos sobre operações financeiras, investimentos de fundos de previdência e relações com o poder público.

    As estratégias dos bancos para conquistar clientes, porém, eram diferentes: enquanto o Ueno apostou na abertura digital de contas, em descontos e na devolução de parte do valor das compras, o Master atraiu investidores com CDBs que ofereciam remuneração muito acima da média do mercado.

    Outra semelhança está no envolvimento de recursos ligados a sistemas de previdência. No Paraguai, o Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, entre eles fundos do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias, pensões e outros benefícios.

    No Brasil, regimes próprios de previdência de Estados e municípios investiram cerca de R$ 1,8 bilhão em títulos emitidos pelo Master, segundo dados do Ministério da Previdência Social.

    Os dois casos também levantaram questionamentos sobre as relações entre instituições financeiras e integrantes do poder público.

    No Paraguai, o Banco Central apontou empréstimos considerados excessivos a empresas ligadas ao grupo controlador do Ueno. O presidente Santiago Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do banco, até março de 2025. O então presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo Spalding, também havia comandado o Ueno antes de assumir o cargo público.

    No Brasil, o dono do Master, Daniel Vorcaro, construiu uma extensa rede de contatos com políticos, integrantes do governo e autoridades do Judiciário. Essas conexões passaram a ser examinadas no contexto das investigações sobre o banco. A existência de contatos, por si só, não significa que as autoridades citadas tenham cometido irregularidades.

    Além disso, os dois casos tiveram desdobramentos na esfera criminal, com a prisão de dirigentes e pessoas ligadas ao controle das instituições.

    Apesar das semelhanças, há uma diferença importante no peso de cada instituição em seu sistema financeiro.

    O Ueno acumulava cerca de US$ 3,75 bilhões em ativos e concentrava aproximadamente 9,1% dos depósitos do sistema bancário paraguaio. O Master, por sua vez, tinha R$ 86,8 bilhões em ativos, mas representava cerca de 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro.

    A diferença também aparece no número de clientes — e na dimensão do impacto da crise. O Ueno chegou a quase 3 milhões de clientes em junho de 2026, o equivalente a cerca de 60% da população adulta do Paraguai.

  20. Como crise em banco se espalhou pelo governo

    A intervenção no Ueno Bank é o desfecho de um escândalo que tem marcado o governo do presidente Santiago Peña desde que ele assumiu o cargo, em 2023.

    Pouco depois de tomar posse, Peña nomeou Carlos Carvallo, então presidente-executivo do Ueno Bank, para comandar o Banco Central do Paraguai. A decisão foi criticada por pessoas que apontaram um conflito de interesses.

    Embora o Banco Central tenha afirmado que Carvallo não participou das decisões do órgão regulador sobre o banco de cuja diretoria havia feito parte, o próprio Carvallo anunciou nesta terça-feira (3/11) que havia assinado sua renúncia, mas permaneceria à frente da instituição até a conclusão do processo de resolução do Ueno Bank.

    Pouco depois do anúncio da intervenção e do bloqueio dos recursos dos clientes, veículos de imprensa paraguaios noticiaram a prisão de vários dirigentes do banco, entre eles Miguel Vázquez, presidente do Grupo Vázquez, ligado à instituição.