'Caso Master do Paraguai': entenda a crise de banco que derrubou o presidente Santiago Peña

Santiago Peña, presidente do Paraguai, durante entrevista à Bloomberg Television em Nova York, em 25 de setembro de 2026. Ele usa terno preto e gravata em tons de azul.
Legenda da foto, As supostas ligações entre o presidente Santiago Peña e o Ueno Bank estão sob escrutínio
    • Author, Norberto Paredes*
    • Role, BBC News Mundo
  • Published
  • Tempo de leitura: 11 min

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5/11), em meio à crise provocada pelo colapso do Ueno Bank, que abalou o sistema financeiro do país e desencadeou uma crise política.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, Peña se desculpou com a população e disse que decidiu renunciar "pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas".

"Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim", afirmou.

Com a renúncia, Peña evitou ser alvo de um processo de impechment. A saída do presidente paraguaio, um dos expoentes da nova direita na América Latina, ocorre depois que o governista Partido Colorado, liderado pelo ex-presidente Horacio Cartes, anunciou apoio ao processo de impeachment.

Peña é acusado pela oposição de conflito de interesses, uso indevido de fundos públicos e encobrimento de irregularidades relacionadas ao banco.

O caso tem como origem o colapso de uma instituição que cresceu rapidamente e chegou a ser apresentada como um dos grandes casos de sucesso do sistema financeiro paraguaio.

Diante das semelhantes, a crise do Ueno Bank passou a ser comparada, no Brasil, à do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025 e que levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro.

Mas para entender como o banco chegou a essa situação — e por que a crise atingiu o governo — é preciso voltar alguns anos.

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Quando o Ueno Bank comemorou sua transformação em banco, no fim de 2023, seus dirigentes se orgulhavam dos números da instituição.

Eles afirmavam que o banco, que era relativamente novo, já tinha mais de 500 mil clientes e havia conseguido incluir no sistema financeiro cerca de 140 mil pessoas que antes não tinham conta bancária.

Era um feito expressivo para uma instituição que, apenas dois anos antes, era uma pequena financeira especializada em tecnologia.

"Isso está apenas começando", declarou Juan Manuel Gustale, então presidente do Ueno Bank, durante as comemorações na Ueno SND Arena, em Assunção.

Menos de três anos depois daquela declaração, a história tomou um rumo inesperado.

Na terça-feira (3/11), o Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou o início de um processo de dissolução do Ueno Bank, após constatar que seu índice de solvência — indicador que mede a capacidade do banco de absorver perdas — havia caído para menos da metade do mínimo exigido.

A notícia surpreendeu muita gente. Poucas semanas antes da intervenção, o Ueno Bank ainda era apresentado como um dos grandes casos de sucesso do sistema financeiro paraguaio.

Em setembro, a instituição afirmava ter mais de 3 milhões de clientes em um país de 6,5 milhões de habitantes — o equivalente a quase dois em cada três paraguaios.

O banco também dizia processar mais de 3 milhões de transações por dia.

A situação abalou não apenas o setor financeiro do país, mas também os mais altos escalões do poder político. Tanto o presidente Santiago Peña quanto o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo Spalding, passaram a ser questionados por vínculos antigos com o banco e seu grupo empresarial.

A crise do banco paraguaio ganhou novas proporções na quarta-feira (4/11), quando parlamentares da oposição intensificaram as tentativas de destituir Peña, a quem responsabilizam pelo colapso do Ueno Bank, que deixou milhões de clientes sem acesso às suas contas.

Os opositores acusam o presidente de conflito de interesses, de permitir o uso indevido de fundos de pensão e de encobrir irregularidades na condução da crise bancária.

Nesta quinta-feira (5/11), a Câmara dos Deputados iria analisar o pedido de denúncia contra Peña e se daria início a um processo de impeachment por sua suposta responsabilidade no caso. Para que o processo avançasse ao Senado, seriam necessários dois terços dos votos dos deputados presentes.

Em um revés para o atual presidente, Horacio Cartes, ex-presidente do Paraguai e líder do governista Partido Colorado, anunciou que a legenda apoiaria o impeachment.

"Não estaremos do lado do desvio de recursos públicos, privados e dos fundos dos aposentados. Precisamos pensar nas pessoas e nos valores que defendemos no Partido Colorado. Apoiamos o impeachment do presidente da República, Santiago Peña, para restabelecer a institucionalidade do país", afirmou em comunicado.

Peña foi eleito em abril 2023 para presidente do Paraguai. Até 2015, ele era um estranho na política nacional. Economista de formação, ele fez parte do Banco Central do Paraguai durante uma década, primeiro na área de Pesquisas Econômicas e depois como diretor.

De direita, é alinhado ao presidente Donald Trump e já fez elogios públicos a ele.

Bancadas da oposição, com cartazes que trazem a mensagem: “Impeachment já!”.
Legenda da foto, O Congresso Nacional do Paraguai realizou uma sessão extraordinária para discutir um possível processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña. Nas bancadas da oposição, cartazes traziam a mensagem: "Impeachment já!"

Orkun Saka, professor e pesquisador de economia financeira da City St George's, da Universidade de Londres, afirma que o caso do Ueno Bank vai muito além da má gestão de uma instituição financeira.

"Sejamos claros sobre o que aconteceu. Um banco pertencente a um único conglomerado empresarial acabou concentrando as economias da maioria dos adultos do país, além de centenas de milhões de dólares em fundos de pensão", disse à BBC Mundo.

Saka afirma que o Banco Central já havia alertado, meses antes do colapso, para os "empréstimos excessivos concedidos pelo banco a empresas ligadas a seus próprios controladores".

"Mesmo assim, os recursos públicos continuaram chegando. Essa não é simplesmente a história de um banco mal administrado. É um sistema em que o banco, o órgão regulador e a Presidência estavam tão estreitamente ligados que nenhum deles parecia capaz de impor limites aos outros", acrescenta.

A BBC Mundo procurou a Presidência do Paraguai para pedir um posicionamento sobre o caso, mas não havia recebido resposta até a publicação desta reportagem.

'Caso Master do Paraguai'

O caso do Ueno Bank vem sendo comparado, no Brasil, ao do Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025.

Nos dois episódios, bancos digitais que cresceram rapidamente em poucos anos atraíram grandes volumes de recursos e acabaram no centro de questionamentos sobre operações financeiras, investimentos de fundos de previdência e relações com o poder público.

Além disso, foram liquidados por insuficiência de capital para honrar seus compromissos.

As estratégias dos bancos para conquistar clientes, porém, eram diferentes: enquanto o Ueno apostou na abertura digital de contas, em descontos e na devolução de parte do valor das compras, o Master atraiu investidores com CDBs que ofereciam remuneração muito acima da média do mercado.

Outra semelhança está no envolvimento de recursos ligados a sistemas de previdência. No Paraguai, o Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, entre eles fundos do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias, pensões e outros benefícios.

No Brasil, regimes próprios de previdência de Estados e municípios investiram cerca de R$ 1,8 bilhão em títulos emitidos pelo Master, segundo dados do Ministério da Previdência Social.

Os dois casos também levantaram questionamentos sobre as relações entre instituições financeiras e integrantes do poder público.

No Paraguai, o Banco Central apontou empréstimos considerados excessivos a empresas ligadas ao grupo controlador do Ueno. O presidente Santiago Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do banco, até março de 2025. O então presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo Spalding, também havia comandado o Ueno antes de assumir o cargo público.

No Brasil, o dono do Master, Daniel Vorcaro, construiu uma extensa rede de contatos com políticos, integrantes do governo e autoridades do Judiciário. Essas conexões passaram a ser examinadas no contexto das investigações sobre o banco. A existência de contatos, por si só, não significa que as autoridades citadas tenham cometido irregularidades.

A tentativa de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB), instituição pública controlada pelo governo do Distrito Federal, também foi barrada pelo Banco Central em 2025, em meio a questionamentos sobre a operação.

Além disso, os dois casos tiveram desdobramentos na esfera criminal, com a prisão de dirigentes e pessoas ligadas ao controle das instituições.

No Brasil, Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, foi preso preventivamente em novembro de 2025. Após ser solto onze dias depois, voltou a ser detido em março de 2026, no âmbito das investigações sobre suspeitas de fraude financeira.

No Paraguai, o juiz responsável pelo caso Ueno determinou nesta quinta-feira (5/11) a prisão preventiva de seis ex-dirigentes e executivos do banco, entre eles Juan Manuel Gustale, ex-presidente da instituição, e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador do Grupo Vázquez, controlador do banco. Outras duas ex-diretoras receberam prisão domiciliar.

Os investigados respondem a acusações que incluem abuso de confiança, tentativa de fraude e conduta indevida em situação de crise. As acusações ainda serão examinadas pela Justiça.

Apesar das semelhanças, há uma diferença importante no peso de cada instituição em seu sistema financeiro.

O Ueno acumulava cerca de US$ 3,75 bilhões em ativos e concentrava aproximadamente 9,1% dos depósitos do sistema bancário paraguaio. O Master, por sua vez, tinha R$ 86,8 bilhões em ativos, mas representava cerca de 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro.

A diferença também aparece no número de clientes — e na dimensão do impacto da crise. O Ueno chegou a quase 3 milhões de clientes em junho de 2026, o equivalente a cerca de 60% da população adulta do Paraguai.

Com a decisão do Banco Central Paraguaio de iniciar o processo de resolução da instituição, em 3 de novembro, os depósitos e as operações do banco foram congelados.

Clientes ficaram sem acesso às contas, aos cartões e ao dinheiro que mantinham na instituição. A medida provocou filas em agências e dificuldades para pagar despesas do dia a dia, como aluguel, compras e transporte.

Confira quatro pontos para entender a crise no Paraguai.

1. As origens do Ueno Bank

As origens do Ueno remontam a 1976, com a fundação da Financeira El Comercio.

Após 45 anos de atividade, a financeira foi adquirida pelo Grupo Vázquez, em abril de 2021. A operação recebeu autorização do Banco Central do Paraguai (BCP) em setembro daquele ano.

Dois anos depois, a instituição obteve autorização para se transformar no Ueno Bank e ingressar no sistema bancário paraguaio.

O banco recém-criado se consolidou em 2024, com a incorporação do Visión Banco. A operação acrescentou à sua carteira mais de 1 milhão de clientes, uma ampla rede de agências e uma das maiores bases de depósitos do sistema financeiro do Paraguai.

Vista aérea da sede do Ueno Bank, em Assunção. O edifício de fachada de vidro azul se destaca na paisagem urbana da capital paraguaia.
Legenda da foto, Sede do Ueno Bank em Assunção, no Paraguai

O Ueno Bank ainda é controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, um dos maiores conglomerados empresariais e industriais do Paraguai.

O grupo é presidido pelo empresário Federico Miguel Vázquez Villasanti, que se apresentou às autoridades judiciais na terça-feira, após a Promotoria ordenar sua prisão.

Entre os detidos estão também Juan Manuel Gustale, presidente do Ueno Bank; Julio Rey Fernández, vice-presidente; Mariana Torres Rubiani, diretora titular; e os integrantes do conselho de administração Diego Duarte Schussmuller e Alejandro Gómez Abente.

Também foram detidos Diana Leticia Mongelós González, segunda vice-presidente do banco, e Miguel Ángel Almada Frutos, executivo ligado à Ueno Seguros e ao Grupo Vázquez.

2. Os vínculos com o governo

Muitos críticos têm chamado a atenção para as ligações entre o Ueno Bank e setores do poder político, especialmente para a relação do presidente Santiago Peña com empresas vinculadas ao grupo controlador da instituição financeira.

Peña figurava como acionista da Ueno Holding, que reúne empresas como a Ueno Seguros, a itti e o Grupo Vázquez, principal acionista do Ueno Bank.

No início de 2025, o presidente paraguaio afirmou que havia deixado de ser acionista da holding e negou qualquer ligação com o banco.

"Eu fui investidor, sou economista, me especializei em Finanças e fiz um investimento há seis anos na empresa Credi Centro, que posteriormente se transformou na Ueno Holding. Nunca foi o banco Ueno. Não tenho nenhuma ligação com o banco Ueno", declarou a um grupo de jornalistas em abril de 2025.

Clientes do Ueno Bank entraram em confronto com a polícia durante um protesto no centro de Assunção, na terça-feira, após o Banco Central do Paraguai decidir intervir na instituição.
Legenda da foto, Clientes do Ueno Bank entraram em confronto com a polícia durante um protesto no centro de Assunção, na terça-feira, após o Banco Central do Paraguai decidir intervir na instituição.

Muitos também questionam o papel de Carlos Carvallo Spalding, que apresentou sua renúncia à presidência do Banco Central do Paraguai em meio à controvérsia.

Antes de assumir o cargo, em agosto de 2023, Carvallo havia presidido a Financeira Ueno.

O economista Orkun Saka alerta que esse tipo de vínculo pode comprometer gravemente a credibilidade das instituições de um país, mesmo quando não há comprovação de irregularidades.

"A regulação depende da confiança da sociedade na imparcialidade de quem tem a responsabilidade de fiscalizar. Quando o presidente do Banco Central já dirigiu o banco que agora deve supervisionar e o presidente do país foi sócio dos proprietários da instituição, essa confiança se rompe. Nesse contexto, mesmo que as decisões tenham sido tecnicamente corretas, será difícil convencer as pessoas disso."

Saka acrescenta que a perda de confiança pode ser uma das consequências mais graves e duradouras de uma crise financeira como essa.

3. Transformação rápida

O processo de transformação do Ueno em banco foi concluído em novembro de 2023, quando recebeu autorização do Banco Central do Paraguai (BCP), então presidido por Carlos Carvallo Spalding.

A aprovação ocorreu apenas três meses depois de Carvallo assumir o comando do órgão e de Santiago Peña chegar à Presidência do país.

Carlos Carvallo Spalding em seu gabinete, usando terno azul e gravata vinho, com a bandeira do Paraguai ao fundo.
Legenda da foto, O presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo Spalding, que apresentou sua renúncia nesta semana em meio à crise, também está no centro das controvérsias

A relação de confiança entre os dois ficou evidente em diferentes ocasiões. Uma delas foi durante a cerimônia de posse de Carvallo, quando o então ministro da Economia, Carlos Fernández Valdovinos, o elogiou publicamente e afirmou que ele "não é apenas uma boa pessoa e um bom profissional, mas, acima de tudo, um grande amigo".

"Nem eu nem o presidente Peña poderíamos pensar em mãos melhores para assumir o comando do BCP daqui em diante e fazer tudo o que queremos e devemos fazer por todos os paraguaios nestes cinco anos", acrescentou.

4. Transferência de fundos públicos

Pouco depois de entrar no mercado bancário, o Ueno Bank começou a captar depósitos de órgãos públicos.

Quando sofreu intervenção, o banco administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos. Entre eles estavam fundos do Instituto de Previdência Social (IPS), incluindo valores destinados a aposentadorias, pensões e outros benefícios sociais.

Para a oposição, os vínculos do banco com o poder público precisam ser investigados mais a fundo.

O senador oposicionista Rafael Filizzola classificou o caso como "a maior fraude da era democrática praticada a partir do poder político".

"Trata-se de um banco criado a partir do poder político para usar dinheiro público em negócios privados ligados ao poder político, tendo o presidente da República à frente", disse ele à rádio 1020 AM.

Filizzola também afirmou que o montante envolvido no caso pode chegar a "algo em torno de US$ 3 bilhões, pelo que sabemos".

Enquanto isso, os clientes do Ueno Bank acompanham o caso com preocupação. Alguns foram às ruas protestar, enquanto aguardam informações sobre quando e quanto poderão recuperar de suas economias.

O Fundo de Garantia de Depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis (cerca de US$ 38 mil) por correntista.

As autoridades afirmaram que o primeiro pagamento, de até 121,7 milhões de guaranis, já começou a ser processado. Mas os clientes com depósitos acima desse valor ainda esperam saber quando e como poderão recuperar o restante do dinheiro.

Saka alerta que as consequências da crise podem se estender muito além das próximas semanas.

"A verdadeira prova não está no que acontecerá nos próximos dias, mas em como a crise será administrada nos próximos anos", afirma.

"Se as medidas adotadas servirão para proteger os poupadores e os contribuintes ou se acabarão beneficiando, mais uma vez, aqueles que têm ligações com o poder."

*Com colaboração de Iara Diniz, da BBC News Brasil em São Paulo.